Jamais serei como as folhas secas que caem mortas no chão... Voarei por entre os ciprestes e chegarei a um lugar onde talvez ninguém me encontre, não importa. Recuso-me permanecer no ponto de partida; prefiro a solidão à mesmice.
quinta-feira, abril 07, 2011
segunda-feira, abril 26, 2010
A mulher de trinta e poucos
A mulher de trinta e poucos apaixonou-se pelo homem de quarenta e poucos. Ele havia alugado um escritório junto ao seu, no mesmo centro comercial, aquele in no miolo da cidade. E foi no primeiro almoço dividido, às treze em ponto, que o homem de quarenta e poucos demonstrou uma certa reciprocidade naquela paixão inesperada. Pensaram em dividir a alface e o bife, mas acharam melhor esperar um pouco mais antes de tomar certas liberdades gastronômicas na frente dos colegas de trabalho. Essa de comer juntos e em público soava-lhes um tanto subliminar. Não queriam ser taxados de solteirões desesperados. Fizeram de conta que não se importavam um com o outro. Ensaiaram uma expressão de desdém mútuo, até que, por fim, decidiram dividir não só o prato do almoço, mas também a quitinete onde ele morava. A mulher de trinta e poucos não se incomodou em abandonar a casa da mãe pra morar num quarto e sala. Saiu de cabeça erguida e jogou fora o título de vitalina que há tanto carregava dentro da bolsa. Não levou nada, apenas duas mudas de roupa e a necessaire com a maquiagem e os creminhos anti-rugas; para uma mulher que já passara dos trinta ela era indispensável, tão importante quanto a própria vida. Passou a trabalhar com mais entusiasmo, ganhou novas cores e começou a comer mais natural. Pensou em todo o tempo que perdeu sem ele e não sabia como um homem assim tão especial estivesse sozinho esse tempo todo. O homem de quarenta e poucos agradeceu o elogio e explicou que não era bem o solteiro convicto que ela pensava. Estava sozinho sim, mas isso após um casamento falido de quinze anos e um filho da mesma idade. A mulher de trinta e poucos não se chocou com a crueza da verdade. Sorriu e achou a sua sinceridade ainda mais romântica. Prometeu não tocar mais no passado e pediu pra conhecer o seu rebento, sangue do seu sangue.
terça-feira, abril 20, 2010
Um café, meia hora e alguns dentes
Enquanto tomava meu café, comecei a folhear a minha querida revista de saúde e bem-estar estalando de nova. A capa brilhante com a foto de uma sílfide comendo uma suculenta melancia me deixou com vontade de ler o primeiro artigo. E ele era taxativo: Escovar os dentes após ingerir certos alimentos como café, refrigerante ou hortaliças escuras pode provocar cáries! Meu mundo caiu e a minha credulidade nas escolas elementares também. Então o que a tia Graça me ensinou durante todos esses anos era pura balela! E eu que corria pra escovar os meus dentinhos após as refeições! Bem, os doutores concluíram que o ácido de certos alimentos em contato com o dentifrício logo após a refeição pode provocar crateras lunares no esmalte dos dentes. Em suma, deveríamos esperar pelo menos meia hora até fazer nossa higiene bucal. Essas revistas nunca mentem, eu sei!
Deixei-me seduzir pelo apelo saudável da revista. O rapazote que vendia asinaturas me convenceu: “Um exemplar por mês, coisa de cinema, senhora. Uma revista super antenada, cheia de novidades sobre as mais recentes descobertas sobre a saúde”.Apaixonei-me pela idéia de virar uma mulher cheia de energia e vitalidade. Mas até que ponto nossas vidas tem de mudar em nome das novas descobertas científicas?
Isso me faz lembrar do caso do marido de uma amiga, um homem pacato e educado a quem Amália, a minha querida amiga enchia de amor e dedicação. Lembro-me como se fosse hoje do doce despertar numa manhã de segunda-feira em sua casa. Eu, como hóspede numa casa minúscula e de paredes finas presenciei o seguinte diálogo:
Passa o peru
Através das finas paredes das casinhas de vila, rodeadas de mangueiras frondosas, ouvia-se mais uma vez as mesmas palavras:
–Vovó, passa o peru!
–Tome.
–Obrigado.
–Por nada, querido. Alguém mais?
–Sim mamãe, me passe o peru, obrigada.
–Pode me passar o peru também?
–Sim. Aqui está.
–Vou guardar o peru, alguém ainda quer?
–Não, vovó, obrigado.
O diálogo sobre o bendito peru na hora da refeição repetia-se todo santo dia. Naquela pequena vila de casas populares, os vizinhos não entendiam como aquela família humilde podia comer semelhante ave diariamente. Dizia-se à boca miúda que a vovó Adelina tinha sido uma moça muito rica e cortejada pelos homens mais poderosos da capital, mas por ter confiado no homem errado, havia perdido tudo, conservando apenas a dignidade. Via-se os restos da aristocracia em seus vestidinhos surrados. Notava-se de longe que aquele senhorinha de chapéu puído e luvas gastas ia à missa todos os dias com o que restara de seu passado pomposo. O genro de Dona Adelina fazia carregamentos na feira do bairro e sua esposa, lavava e passava para fora, ajudando a criar os dois flhos. Um parco dinheiro no fim do mês que servia para as despesas básicas. Impossível imaginar que aqueles operários comessem peru todos os dias.
segunda-feira, outubro 26, 2009
Pérfidas (TEATRO)
A casa das irmãs Tavares de Albuquerque não era mais a mesma. A sala escura e úmida, iluminada apenas pelo lume de algumas velas esparsas, seguia fria e soturna – um túmulo de pessoas vivas – encarcerando o desespero de três mulheres falidas e abandonadas pela sorte. É noite, e uma das habitantes da caquética morada, que um dia fora um palacete frequentado pela fina flor da sociedade, lembra às companheiras de amargura a sua presença, com um grito pavoroso:
-Mariaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!
-O que foi Teodora, pra que essa gritaria, sua louca?! –Xingou Inês, segurando a faquinha que usava para descascar uma laranja murcha.
-Eu já disse mil vezes à Maria pra não deixar as janelas abertas à noite, não quero pegar um resfriado!
-Esqueceu-se que não tem mais nenhuma Maria aqui? Eu a mandei embora, é passado; não temos mais como pagar uma empregada!
-Você mandou embora a criada? E agora, quem vai limpar a poeira, quem vai preparar o meu suflê de pescado? Minhas blusas de seda tem que ser lavadas à mão! Como ousa demitir a minha empregada, sua intrometida!!! – Rosnou Teodora, a mais nova das irmãs, tentando demonstrar dignidade com a velha camisola importada e os gastos chinelos franceses que acomodavam seus pés delicados. Lembranças de um tempo abastado e glorioso.
-Mas será que ninguém pode mais dormir nessa joça? Porque essa gritaria, suas gralhas?! – A voz de Cecília ecoou pela sala úmida com estrondo, corroborando sua empáfia de irmã do meio. – Toda noite é a mesma coisa! Por que estão brigando agora, por comida? Saibam que eu dividi o mingau igualmente e deem-se por satisfeitas, amanhã vai ter batatas cozidas e só!
-Você sempre foi péssima cozinheira, Cecília, mas será possível ?! Vou até o banco amanhã bem cedo, tiro o dinheiro da poupança e chamo a Maria de novo. Não podemos ficar à mercê dos seus desastres culinários, minha irmã!
-Qual poupança, criatura? Não temos mais um tostão furado!
-Eu já disse à essa demente que não temos mais condições de manter uma empregada, Cecília. – Continuou Inês apertando a laranja com força, prendendo a respiração para não avançar na irmã fútil.
-Não precisa falar assim com ela, Inês! Ela não é demente, apenas não aceitou o....
-O que Cecília? O fato de estarmos na miséria? De não termos mais empregados para nos servir? De sermos obrigadas a viver um eterno clima de velório por não termos como pagar as contas de luz? Ah, como odeio essas malditas velas... Mal temos dinheiro para comer! Talvez essa retardada ainda não tenha notado a nossa situação, ela sempre foi meio lerda mesmo. A nossa querida casa está hipotecada e em breve seremos despejadas! Deu pra perceber que papai morreu deixando somente um monte de dívidas e a vergonha de viver o resto de nossas vidas como mendigas?!
-Vocês estão mentindo! Não é possível que a nossa poupança esteja a zero! Vou ligar para o Roberto, ele sim entende desses assuntos financeiros, vai me ajudar. Tão inteligente o Roberto... – Os olhos de Teodora brilharam, a esperança cobriu sua alma ao recordar as qualidades do noivo .
-Sua louca! Maldita demente! Não vê o que está acontecendo à sua volta? Não há mais nenhum Roberto, ele abandonou você no altar, esqueceu-se? Você é uma criatura fútil e egoísta, só se preocupa com seu maldito bem- estar! Entenda, você está sozinha, querida! Sem amigos, sem homem, sem pai nem mãe e pobre, entendeu? Pobre!!!
-Você está com inveja, porque eu sou mais jovem e mais bonita do que você, sua despeitada! Fui eu que tive a maior festa de noivado da cidade, o vestido mais caro feito com renda francesa legítima, uma legião de admiradores que se curvavam aos meus pés! E você, que vida teve até hoje? Viajando sempre sozinha, frequentando aqueles inferninhos fétidos, fumando sabe-se lá o que com aqueles pseudo amigos lunáticos… O fato è um só, minha querida, ninguém nunca a suportou! Os homens olhavam pra mim e para o meu corpo perfeito, não para você com essa cara de peixe morto. Meus amigos eram todos loucos por mim, porque eu era a mais simpática, a mais extrovertida, a mais bela; nunca fui apática e sem sal como você! Se a inveja a corrói, minha cara, não è culpa minha!
Cecília percebeu pequenas bolhas de ira subir pelo pescoço de Inês. Imaginou pequenas aranhas peçonhentas saindo de sua boca amargurada. Teve medo que resquícios de “águas passadas” viessem à tona para inundar ainda mais o enlameado destino das três.
-Inês, querida, não ligue para as bobagens da Teodora. Esqueçamos o passado, o que você tem que entender é que…
-Como tem coragem de dizer que eu tenho inveja de você, sua….sua…piranha! – Inês gritava com fúria, molhando o rosto da irmã com pequenas gotículas de saliva e fel.
-Não adianta me insultar, cara irmã, a verdade é uma só: eu sempre fui linda e você nunca suportou isso. Pensa que não sei da inveja que sempre sentiu de mim? Dos seus sorrisos entrecortados quando eu quebrei a perna e não pude ser a rainha do milho na escola? A raiva que você sentia quando o papai me colocava no colo e nem ligava pra você? Você sempre foi pérfida, Inês, nunca prestou! – Retrucou Teodora no segundo degrau da escadaria, equilibrando o pequeno castiçal que levava na mão direita.
-Linda você? ! Meu Deus o quanto é pretensiosa. Faz-me rir!
-Linda sim, e todos os rapazes caíam aos meus pés e nunca olhavam pra você, por isso o seu ódio por mim. Quer que eu refresque sua memória? Lembra daquele joalheiro espanhol, o Pablo Lablanca? Ou ainda o Carlinhos Paes de Sá, aquele Marchand elegantíssimo? Ou seria melhor relembrar o Fernando Benevides Maciel? Isso sem falar nos irmãos Macedo de Alcântara, todos dois loucos por mim, até brigaram pra ver quem ficava comigo. E o Roberto então... Com aqueles olhos azuis, aquele corpo de Apolo….. Pode sonhar meu bem, porque um corpo atlético como o dele você não vai ter nunca!
-Meninas, por favor! Vamos dormir que è tarde. Não tem cabimento que fiquemos aqui discutindo essas besteiras. – Atalhou Cecília, tentando voltar ao quarto e esquecer que o mingau forrara tão precariamente seu estômago.
-Besteiras? Você chama os insultos dessa daí de besteiras, Cecília? Logo você que sempre foi a mais sensata da família! – Gritou Inês voltando-se novamente para Teodora. – Escute aqui sua fedelha, abra bem essas suas orelhas imundas porque eu não vou repetir. Você ficou plantada naquela igreja esperando por aquele playboyzinho de uma figa, fazendo a figura patética da noiva abandonada perante toda a sociedade. Pensei que depois daquele dia você fosse baixar a crista, mas vejo que continua a mesma leviana de sempre!
-Sua solteirona amarga! Você precisa é de um belo macho que lhe mostre o que é bom! Se bem que vai ser difícil, vestida com aqueles trapos horrendos que costuma usar, quem è que vai olhar pra você? Papai tinha razão quando dizia: “Inês é o pilar dessa casa”. Você tinha que ter alguma qualidade que suprisse a falta de beleza! Não sei o que ele via em você, sempre foi um fraco!
-Não fale assim do meu pai, sua víbora! Bata na boca antes de falar daquele santo homem!
-Inês, Teodora, por favor! Respeitem ao menos os mortos! – As batidas aflitas do coração de Cecília podiam ser ouvidas do outro lado da rua.
-Santo homem?
Ora, que piada. Você mesma acabou de dizer que ele nos deixou na miséria! Estamos arruinadas, adeus festas, reuniões no clube, viagens ao exterior… estamos condenadas a viver uma vidinha medíocre contando os trocados! Olhem para essa casa, não é nem a sombra do que foi um dia. E agora vocês ainda vem me dizer que não temos mais nem um tostão na poupança! Onde está o dinheiro que papai deixou pra mim?
-Pagamos os advogados, Teodora, compramos comida. Não se zangue com o papai, ele fez o que pôde quando vivo. – Cecília com sua habitual mania de pôr “panos quentes” nas situações tensas, tentou acalmar os ânimos das irmãs briguentas.
-Fez o que pôde? Você acha mesmo que aquele velho fez o que pôde? Ele deve estar rindo junto com a mamãe lá do outro lado... Olhem para mim, faz séculos que não faço as unhas, que não chamo meu massagista, que não compro roupas! E tudo isso por causa dele! Pois que queime no inferno, ele e suas boas intenções!
-Maldita cobra! Como tem coragem de falar assim de alguém que já morreu? – Gritou Inês balançando a faca que levava na mão. – Ele sempre lhe quis bem, você devia se envergonhar!
- E ele o que fez? Pôs três filhas no mundo, acostumou-as com o luxo e as comodidades pra depois abandoná-las assim, na miséria! Maldito seja!
Inês não pôde mais segurar todo o rancor que tinha guardado pela irmã durante todos aqueles anos. Teve vontade de esganá-la, mas nenhuma agressão física poderia ferir tanto a irmã quanto a frase que tinha em mente.
-Ele pôs apenas duas filhas no mundo, meu bem.
-Inês, por favor, não! –Cecília gritou, tentando reverter a ferocidade daquelas palavras, mas era tarde demais, não havia como remediar tamanho estrago.
-O que você está inventando agora, sua peste?!
-Nada, Teodora, ela só estava brincando... Inês pelo amor de Deus, baixe essa faca, mulher!
-Vamos fale sua velhaca, o que quer dizer com isso? 10 jul excluir Ilka Canavarro
– Teodora estava pálida, seus olhos queriam sair das órbitas, o sangue parecia não chegar à sua cabeça. Chegou perto da irmã para poder vê-la melhor em meio à penumbra da sala.
-Você nunca teve talento pra nada, sempre foi burra e fútil. Veja a Cecília, fala cinco idiomas, já viajou o mundo trabalhando, uma mulher polivalente. Ficou viúva cedo, coitada, entrou em depressão, mas sempre foi uma mulher batalhadora. Eu organizei várias festas e eventos importantes na minha vida, lidei com várias personalidades nos meus tempos de promoter. Cansei da vida mundana e parei, mas sempre trabalhei. E você? O que você fez? O que você é? Uma sanguessuga que sempre viveu agarrada na barra da saia da mamãe e nas costas de papai. Uma inútil, sem nenhum talento. Lógico, você não tem o nosso sangue. Você deve à papai a sorte de ter sido registrada por ele, você hoje è uma Tavares de Albuquerque graças ao seu bom coração.
-Sua bruxa! Não è verdade, você tem inveja, sua lacraia! – Teodora gritava com lágrimas nos olhos. A raiva e a incredulidade apoderaram-se de seu corpo, fazendo a chama da vela tremer bruscamente.
-Pensa que eu não lembro do dia em que papai trouxe você pra casa? – Continuou Inês balançando ainda mais a faca na mão nervosa. – Tão raquítica, que mais parecia um rato molhado. Nem sei de que buraco ele tirou você, só disse que estava fazendo um favor à um amigo. Você è adotada, querida. A-d-o-t-a-d-a, entendeu? Nunca foi e nem nunca será nossa irmã! – Inês sorriu, eram anos que ela levava esse segredo entalado na garganta. Não suportava mais os achaques da irmã mimada. A situação de penúria em que se encontravam fez ferver os ânimos e a mais velha das três saboreou finalmente o gosto explícito da verdade.
-Por que Cecília? –As lágrimas molhavam o rosto de Teodora que buscava alento nas palavras carinhosas da irmã do meio.
-Teodora, minha querida. Nós íamos lhe contar um dia… Não ligue pra Inês, lembre-se que as crianças adotadas são muitas vezes mais amadas do que os próprios filhos legítimos. Papai amava você, acredite. Ele nunca quis que você soubesse, não queria que se sentisse diferente…. Perdoe a Inês, ela tem o jeito dela de falar, mas ama você, como todos nós...A nossa caçulinha.
Após dar um beijo em Cecília, a moça adotada aproximou-se de Inês, que ainda bufava, ofegante com seu desabafo.
-Eu sei que você me quer bem, Inês. Somos irmãs, perdôo você....
Teodora abraçou-a, afagando-lhe as costas por cima do robe desbotado. As chamas da vela que ela segurava, propagou-se pelos cabelos de Inês que saltou para trás num grito de horror.
-Teodora, o que você fez!!!!!!!!
Cecília arrancou a cortina empoeirada da sala e correu para acudir a irmã que se debatia em meio ao fogo. Um baque. Com o empurrão de Teodora, Cecília caiu de cabeça na quina da mesinha de centro. Os candelabros espalhados pela sala foram jogados em cima dos móveis, o fogo se alastrava rapidamente sem fazer distinção entre as moças. Teodora agarrou a foto do pai e com a faquinha que caíra das mãos da irmã, abriu um pequeno corte no pulso esquerdo. Deitou-se no chão. Com o sangue que escorria no vidro da foto, ela sussurrou com um sorriso, antes que o fogo a consumisse por completo:
-Agora temos o mesmo sangue, papai.
Quanto me queres?
Quanto me queres?
Me queres tua?
Não esperes, senhor.
Me queres perdida?
Não creias, senhor.
Me queres enamorada?
Me queres enternecida?
Porquê queres tudo e não queres nada?
Roubando-me a mocidade já perdida
Sugando-me a razão,
Sem me contar a verdade sobre a tua vida tacanha
Teus erros infames...
E me transportas a esse vão
Onde o teu desejo doentio me desarma, me domina
Me deixa sob as tuas mãos tortuosas
Portando-me à loucura e ao martírio
Penetrando-me com teu perfume prosaico
Violentando-me com tuas palavras atrozes e lascivas
Tão submissa
Gozando e odiando aquele átimo de intimidade
Alimento dos meus dias.
E mesmo abominando a tua pérfida presença
Não posso dizer que não te amo.
Quanto me queres?
quinta-feira, janeiro 08, 2009
Série A
Desejava-o. Abriu a porta da geladeira e bebeu água. Direto da boca da garrafa, sem nenhum pudor.Enxugou a boca, a água escorria por seu pescoço, refrescando-a.
Ele assistia à partida de futebol e não desejava nada mais que terminar sua cerveja e comemorar a vitória do seu time. Ela abriu um livro qualquer, não sabia se era um guia de viagem ou um dicionário, não conseguiu se concentrar. Levantou-se e ofereceu-lhe um pratinho com castanhas-do-pará, suas preferidas. Ele aceitou e deu-lhe um beijo indolente, sem olhá-la, fixando o monitor brilhante da tv hipnotizado pelo verde do gramado e pelas meias brancas que saltitavam. Ela deixou-se levar pela figura de seu braço forte delineada pela manga curta da camiseta colada ao corpo e suas pernas atléticas que saíam da bermuda displiscente; pelos cabelos desalinhados e pela fina barba que começava a despontar em seu rosto duro. Desejava-o. Mas ele não percebia. Ela pensou em confessar que precisava desesperadamente amá-lo. Mas desejava-o a tal ponto que teve medo do seu julgamento. Pareceria leviana.
Respeitou os sagrados quarenta e cinco minutos do marido e refugiou-se no banheiro. Lavou o rosto e pensou nele. Pela fresta da porta observava-o. E como estava sexy naquela manhã! Havia nele algo de despretensioso, algo que mexia com ela. Ele nem percebia sua presença, concentrado no jogo, vociferava contra o juiz por estar perdendo de 1X0. Ela abandonou-se ao prazer solitário que uma mulher encontra quando se sente ignorada. A visão prosaica do seu homem bebendo sua cerveja, concentrado, com seus olhos azuis fixos na tv, levou a solitária mulher ao ápice do gozo, em poucos segundos ela se contorcia e o time dele fazia o primeiro gol. Ambos gritaram, ele quase chorou ao ver o timão empatar e ela sorriu, como se ele a tivesse possuído.
E assim criaram uma espécie de ritual insconsciente, ele feliz por que ela o deixava sozinho com sua partida de futebol e ela entregue às carícias solitárias enquanto o admirava. Não se soube que estranho sortilégio brotava entre os dois, mas desde aquele mágico domingo, seu time do coração ganhava todos os jogos e a relação dos dois ficou perfeita. Felizes e satisfeitos faziam amor todas as noites, ela parecia insaciável e o time do marido nunca mais foi rebaixado.
Ele assistia à partida de futebol e não desejava nada mais que terminar sua cerveja e comemorar a vitória do seu time. Ela abriu um livro qualquer, não sabia se era um guia de viagem ou um dicionário, não conseguiu se concentrar. Levantou-se e ofereceu-lhe um pratinho com castanhas-do-pará, suas preferidas. Ele aceitou e deu-lhe um beijo indolente, sem olhá-la, fixando o monitor brilhante da tv hipnotizado pelo verde do gramado e pelas meias brancas que saltitavam. Ela deixou-se levar pela figura de seu braço forte delineada pela manga curta da camiseta colada ao corpo e suas pernas atléticas que saíam da bermuda displiscente; pelos cabelos desalinhados e pela fina barba que começava a despontar em seu rosto duro. Desejava-o. Mas ele não percebia. Ela pensou em confessar que precisava desesperadamente amá-lo. Mas desejava-o a tal ponto que teve medo do seu julgamento. Pareceria leviana.
Respeitou os sagrados quarenta e cinco minutos do marido e refugiou-se no banheiro. Lavou o rosto e pensou nele. Pela fresta da porta observava-o. E como estava sexy naquela manhã! Havia nele algo de despretensioso, algo que mexia com ela. Ele nem percebia sua presença, concentrado no jogo, vociferava contra o juiz por estar perdendo de 1X0. Ela abandonou-se ao prazer solitário que uma mulher encontra quando se sente ignorada. A visão prosaica do seu homem bebendo sua cerveja, concentrado, com seus olhos azuis fixos na tv, levou a solitária mulher ao ápice do gozo, em poucos segundos ela se contorcia e o time dele fazia o primeiro gol. Ambos gritaram, ele quase chorou ao ver o timão empatar e ela sorriu, como se ele a tivesse possuído.
E assim criaram uma espécie de ritual insconsciente, ele feliz por que ela o deixava sozinho com sua partida de futebol e ela entregue às carícias solitárias enquanto o admirava. Não se soube que estranho sortilégio brotava entre os dois, mas desde aquele mágico domingo, seu time do coração ganhava todos os jogos e a relação dos dois ficou perfeita. Felizes e satisfeitos faziam amor todas as noites, ela parecia insaciável e o time do marido nunca mais foi rebaixado.
segunda-feira, janeiro 05, 2009
Sorriso de Lata

Seus olhos fitavam o chão muito tranquilos. Chegou assim como quem não quer nada e estendeu uma esteira na areia da praia. Achou bonito o grupo de pessoas vestidas de branco esperando com ânsia a chegada do novo ano. Permitiu que seus dois filhos brincassem em meio à multidão que eu também fazia parte e enquanto a massa conversava animadamente na orla, ela reforçou a frase: “vê se não vão pra longe, vocês podem se perder!” O menino correu com uma garrafa de sidra, da mais barata, pela areia fofa e com suas mãos pequeninas sacou a rolha de plástico do vasilhame já semi-aberto, gargalhando contente. A irmã puxou-lhe a orelha dizendo com a voz gasguita: “mainha disse pra você não abrir agora, seu burro!” E altiva tomou a garrafa para si, deixando o pequenino com ares de choro. Mas logo ele esqueceu as próprias agruras e pôs-se a correr com seu shortinho vermelho poído ao lado da irmã que sacudia as tranças negras.
Olhei para aquela mulher com curiosidade, era preciso ter muita coragem, no meio de pessoas tão elegantes que esperavam pela hora de abrir o espumante e pular as sete ondas de Iemanjá, para deitar-se displicente debaixo de um coqueiro como se estivesse na varanda da sua casa. Talvez ela viesse do interior e provavelmente não estava habituada aos costumes da cidade, pensei com meus botões. Quase ri do modo de como estava vestida e de como se comportava, achei peculiar, nada mais.
Os fogos encheram de beleza os céus da cidade empolgando a todos com seu espetáculo colorido. Eu, de alguma forma atraída por aquela pequena e solitária família, não pude deixar de notar o brilho nos olhos daquelas duas crianças vidrados no estourar da pólvora mágica, deixando-se transportar a um mundo de sonho e júbilo. A mãe, com o braço na tipóia, permaneceu sentada na sua esteira velha; parecia não ligar muito para o espetáculo de cores diante de seus olhos... aqueles olhos de uma tranquilidade que beirava o marasmo e a apatia, aquele olhar que me chamou a atenção.
Brindei com os meus e entre augúrios de um bom ano novo , paz e saúde, bebemos o champanhe francês e degustamos os queijos italianos enquanto a orquestra de um hotel qualquer tocava uma marchinha de carnaval daquelas bem antigas. Era um rèveillon como outro qualquer, mais um lugar comum, os mesmos desejos, os mesmos cumprimentos, as mesmas palavras... Olhei para o lado e percebi, saindo do meu mundo tão resumido e tão minúsculo, duas carroças de madeira cheias de garrafas pet e latinhas vazias de cerveja e refrigerante. Os olhos de sua proprietária continuavam na mesma mansidão morna, velando os filhos em sua esquálida existência, esperando que a multidão terminasse de se divertir para que ela, com sua melhor roupinha, remendada aqui e ali, mas muito distinta, recolhesse os restos descartados por aquelas pessoas que nem imaginavam a sua jornada. Desconheciam completamente a importância daqueles pedaços de metal para aquela família, ignorando o fato que o brilho do alumínio seria os trocados da manhã seguinte, transmutando-se em pão e leite.
sábado, maio 06, 2006
"Tira a mão que a sandália é minha! (uma odisséia no shopping)"

Segunda-feira, dia perfeito para fazer compras. As lojas vazias, os provadores à disposição, todas aquelas araras cheias de roupas novinhas à escolha, de vários tamanhos e cores...Nenhuma gritaria ou choro de criança, nada de gente empurrando, adolescentes correndo; um verdadeiro paraíso. Tomo meu café da manhã com calma, me visto o mais espartana possível; é melhor estar confortável para a longa jornada. Pego a bolsa e sigo direto ao templo capitalista do consumo, o meu idolatrado Shopping Center.
Estaciono fora do shopping, afinal pra quê pagar um estacionamento tão caro? Prefiro economizar e caminhar um pouquinho a mais, até que um pouco de exercício me faria bem. Olho no relógio, são apenas 10:00h, ainda é cedo, tenho todo o dia pela frente. Ao entrar naquele paraíso gelado cheirando a perfume francês e a pipoca recém-estourada, deparo-me com gente que se diverte, gente que passeia, gente que namora, gente feliz, gente maluca, gente, gente, gente...!!!
Estaciono fora do shopping, afinal pra quê pagar um estacionamento tão caro? Prefiro economizar e caminhar um pouquinho a mais, até que um pouco de exercício me faria bem. Olho no relógio, são apenas 10:00h, ainda é cedo, tenho todo o dia pela frente. Ao entrar naquele paraíso gelado cheirando a perfume francês e a pipoca recém-estourada, deparo-me com gente que se diverte, gente que passeia, gente que namora, gente feliz, gente maluca, gente, gente, gente...!!!
Pensei estar sendo acometida por uma alucinação, mas lembrei que havia tomado a minha dose diária de cafeína, não podia ser crise de abstinência. Sim, era uma segunda-feira: dia nacional dos shoppings vazios....e ele estava lotado!
Eu havia chegado até ali decidida a fazer boas compras e iria fazê-las por bem ou por mal. Empinei o nariz e caminhei de cabeça erguida em meio à massa.
Após desviar de "trocentas" pessoas, cheguei à primeira loja. Deparo-me com uma "gangue" de mulheres insandecidas com os braços abarrotados de roupas, sapatos e afins. Olho pro grande cartaz em letras luminosas: "Tudo pela metade do preço em 4 vezes sem juros, aproveite!!" Finalmente compreendi o porque daquela multidão numa segunda-feira, havia esquecido do "Dia de queima total!" Decido me unir ao grupo de mulheres ávidas por descontos, e munida de uma sacola vou à caça. Ao longe observo uma saia linda, aquela que eu procurava há um tempão. Corro para a arara onde estão penduradas apenas duas delas e na minha frente uma senhora de "formas abundantes", rápida como um raio, pega meu objeto de desejo: a saia verde-musgo, número 44 e grita para a amiga: "Olha Maria o que eu achei! Aquela saia que estão usando agora, sabe aquela da novela das oito?" A essa altura, me resta somente pegar a outra saia que sobrou, rezando pra que seja meu número, olho a etiqueta de soslaio e constato: número 40! Olho de novo em volta e não encontro nenhuma outra. Pergunto à moça da loja se por acaso ela teria outro número no depósito e ela diz que não, todas aquelas peças são as últimas do estoque. Decepcionada, vou em busca de otros "tesouros"....
Encontro uma calça jeans linda, modelo básico com umas pedrinhas de strass, vejo a arara cheia, BINGO! Certamente entre todas aquelas peças eu encontraria meu número. 40, 42, 38, 36... faltavam apenas três peças, não podia estar acontecendo comigo, eu queria apenas uma, umazinha com o meu número, fecho os olhos e me concentro, recorro à última peça: 44! Viva!! Agarro-me àquela calça com todas as minhas forças, ninguém a tiraria de mim, era minha! Acho uma blusa maravilhosa, um número a menos, mas não faz mal, quem sabe provando não estica? Não custa tentar. Depois de escolher algumas peças, vou em direção à seção de calçados. Olho com calma mas não vejo nada que me agrade, até que noto uma sandália fabulosa, dourada com lantejoutas multicoloridas, feita à mão, couro legítimo. Um pouco extravangante, é verdade, mas mesmo assim linda. Sempre sofri com meu pé avantajado número 39 e desde então nunca tive esperanças de encontrar meu número logo de cara. 34, 35, 37, 39... 39! Não pude acreditar nos meus olhos, era meu número naquela sandália linda! Agarrei-a o mais rápido possível, era minha eu vi primeiro. Provei, calçava como uma luva, mas olhando bem, era muito chamativa pra mim, todo aquele brilho numa sandália plataforma, me sentia uma espécie de Carmem Miranda "High-tech". Apòs refletir muito, com os olhos ofuscados pelo brilho daquela "jóia", recoloco a sandália na prateleira, não é pra mim um acessório assim tão diferente.
Dirijo-me ao provador onde enfrento uma fila quilométrica. Depois de esperar um tempão, finalmente entro e procuro uma cabine vazia, todas as melhores estavam ocupadas. Entro na única disponível, aquela que fica no ângulo da parede, esquecida por todos. Apesar do espaço claustrofóbico enfrento minha odisséia em busca da calça perfeita. Feliz por ter aquele jeans maravilhoso nem ligo pro calor- àquela altura do campeonato o ar-condicionado já não fazia efeito- me visto já pensando com que blusa usar aquela fabulosa calça, linda, justa...um pouco estreita, mas continuo, jeans novo é assim mesmo, depois cede. Consigo com muita luta vestir até um pouco acima dos quadris e num esforço sobre humano fecho o zíper. Olho-me no espelho e em vez de uma mulher vejo uma batata com pernas. Numa última tentativa, sem conseguir respirar direito, sento no banquinho do provador, quem sabe ela cede um pouco e... "zap"! Lá se vai o zíper. Não me resta mais nada a não ser desistir daquela compra. Já que estou no bendito provador, provo as blusas que escolhi. A primeira è muito curta e ultra decotada; decididamente o visual "rameira-chique" não faz a minha cabeça. A segunda, cor de pêssego desbotado me deixa com a aparência da minha avó, e a terceira um número maior que o meu parecia uma blusa de pijama. Odiei todas, perdi meu tempo e estava morrendo de calor. Devolvi todas as peças e decidida a voltar pra casa com alguma coisa, voltei à seção de calçados, determinada a comprar aquela sandália cintilante.
Na prateleira todos os números menos o meu, eu não poderia ser mais azarada, olho em volta pra ver se por acaso alguém a teria colocado em outra prateleira e eis que a vejo nas mãos de uma outra mulher!! Tinha mais ou menos 1,60m, e calçava 39! Presenciei com os olhos marejados outra que provava a "minha sandália"! Fiquei por ali, como quem não quer nada, se por acaso ela desistisse eu agarraria aquele objeto com todas as minhas forças. Não sei porque, mas desejava aquela sandália como nunca havia desejado outra em toda a minha vida, e por bem ou por mal ela seria minha.
Ela provava, se olhava no espelho, indecisa, passou uns quinze minutos analisando a bendita. Mas porque eu não havia pego antes? Como fui estúpida. Agora aquela mulher baixinha e gordinha a compraria e caminharia feliz e satisfeita pelas ruas ostentando o que deveria ser minha. Eu não poderia permitir, onde estavam meus brios, meus ideais? Eu tinha que seguir aquilo em que acreditava, tinha que reagir. Sentei-me ao lado da tal mulher, peguei um par de sapatos qualquer e emendei uma conversa de "João sem braço":
-É já a quarta vez que venho aqui, toda vez que compro um sapato tenho que vir trocar...
-Mesmo? me respondeu sem muita convicção.
-Ah é, eu comprei uma sandália aqui semana passada, fiquei com o pé cheio de bolhas, decidi trocar por outra que descolou as tiras depois de um dia de uso. Troquei novamente dessa vez por um sapato, você não imagina como era desconfortável, mal consegui caminhar... e agora estou aqui de novo, nem sei se troco por outro ou peço meu dinheiro de volta, acho até que é caso de falar com o gerente, o que você acha?
-Nossa, é a primeira vez que eu compro aqui. Estava pensando em comprar essa sandália, não é linda?
-Como estrutura é até bem feitinha, mas sinceramente, conhecendo os produtos daqui, eu não a aconselharia a levar. Olha que depois de meia hora de caminhada a você vai estar cheia de bolhas nos pés. Não vê como é grosseiro o material? E depois quem garante que é couro legítimo?
-Mas está na moda, todo mundo tá usando...
-Balela, querida, essa moda de brilho já era, você não viu a entrevista com aquele estilista famoso, como é que se chama mesmo? Bem, o importante é que ele disse que quem comprar essas coisas brilhosas vai se arrepender, já é "out". Disparei minha última cartada..
-Nossa, eu nem sabia disso....Respondeu a mulher já desanimada.- mas quem liga pra esse negócio de moda? Eles dizem tanta coisa. O importante é que eu gostei.
Eu não podia acreditar, ela ia mesmo comprar a sandália. Eu estava a ponto de partir pra cima dela e arrancar à dentadas das suas mãos. Ela se despediu e foi em direção ao caixa. Sim, era a mais pura realidade, lá se foi o meu sonho de consumo.
Segui-a com discrição, eu não iria desistir, quem sabe ela pensaria melhor e deixaria o produto. Ela olhava a sandália como se a analisasse, colocou no balcão e a apalpou várias vezes, estava em dúvida! Sim, ela estava em dúvida. Perguntou o preço à moça do caixa, pensou e pagou.
Ela havia comprado. Provavelmente era cara, visto que a minha rival havia pensado duas vezes antes de se decidir, mas pra mim não importava o preço, eu estava disposta a pagar, afinal eu tinha recebido um sinal dos deuses, aquela sandália tinha que ser minha ela me chamava. Pergunto à moça da seção se há uma outra do mesmo número, recebo um não como resposta. Já passava do meio dia, morrendo de fome e frustrada, decido comer alguma coisa.
Faminta, me dirijo até a praça de alimentação no afã de encontrar uma mesa vazia para descansar e comer alguma coisa. Encurralada por pizzarias, lanchonetes, restaurantes chineses, self-services, docerias e suas imensas filas, decido comprar um pastel de queijo e uma coca-cola; um lanche nada saudável, mas estava com tanta fome e a multidão era tão grande que o mais aconselhável era pegar o que saísse primeiro e nesse caso os pastéis nadando em óleo saíam em menos de cinco minutos. Encontro uma mesa vazia com uma cadeira, sento-me junto à um grupo de adolescentes endemoniados. Em meio àquela gritaria devoro meu lanche um pouco cabisbaixa. Compro um sorvete de casquinha, afinal é sempre bom comer algo doce quando se está deprimida. Caminho em direção ao corredor principal e na contra mão um garoto de mais ou menos doze anos se materializa do nada e esbarra em cheio em mim. Vejo-me toda suja de sorvete de creme cuja maior parte foi parar obviamente no chão. O dito cujo me diz um irritante: "-Desculpa aí hein, tia!" E eu ainda sou chamada de "tia". Sem palavras, dirijo-me ao banheiro feminino e encontro outra fila quilométrica; dezenas de mulheres esperando pra fazer xixi e se maquiar. Encontro uma pia vazia, abro a torneira que sem mais nem menos começa a espirrar água pra todos os lados principalmente na minha blusa já manchada de sorvete. Agora além de cansada e frustrada também estava molhada. Tento me secar num daqueles pavorosos secadores de mão, a instrução diz para colocar as mãos debaixo do aparelho e esperar que se acione sozinho. Faço mais ou menos três tentativas e nada, não funciona. Uso outro e mais ou menos conserto o estrago causado na minha blusa.
Volto aos corredores do shopping, dou uma olhadela ao redor, vejo tantas promoções, ofertas e cartazes de "queima-total", vejo também muita gente, as lojas abarrotadas de pessoas comprando freneticamente. Não tenho disposição pra enfrentar shopping lotado, aliás nunca tive, tenho pavor de multidão de qualquer espécie. Decido voltar pra casa, refaço então todo o percurso de volta à fatídica loja onde perdi a oportunidade de comprar minha sandália, visto que a saída era por ali mesmo. Assim como quem não quer nada dou uma outra olhada na seção de calçados, quem sabe por algum milagre encontro uma sandália igual àquela perdida por ali e.... sem palavras, estupefata e emocionada vejo a minha reluzente sandalinha de novo em exposição e número 39!
Corro imediatamente em direção à ela, e eis que surge na minha frente uma garota de mais ou menos dezesseis anos dizendo: "Olha mãe que linda!" Eu no alto dos meus trinta anos, com todas as minhas artérias e neurônios na mais perfeita ordem não podia permitir que me roubassem pela segunda vez! Sem pestanejar avancei na sandália e a agarrei com todas as minhas forças; "tira a mão que a sandália é minha!" A garota, atônita, me olhava como quem analisa um ser de outro planeta, certamente pensando que eu fosse uma louca, uma espécie de maníaca homicida. Tendo em mãos o objeto do meu desejo, corro em direção ao caixa. Contente e leve de espírito nem me importa o tamanho da fila, espero com prazer. Na hora de pagar, o preço um tanto "salgado" não me assusta, depois penso em economizar em outra coisa. Saio da loja com a sacola nas mãos como se fosse um troféu, enfim, venci!
Depois de uma semana, tendo já usado a minha "fabulosa" sandália umas três ou quatro vezes, chego à desagradável conclusão que ela realmente calça muito mal, e o pior, não combina com nenhuma das minhas roupas. Eu me sentia uma espécie de "Sandra Rosa Madalena", uma cigana desvairada montada naquela alegoria cheia de lantejoulas.
Com uma bolha em cada pé vejo que aquela maravilha não é tão maravilhosa assim. Maldita garota, por quê ela não me impediu de comprar aquela coisa pavorosa? Deveria ter lutado pelos seus direitos! E custou tão caro, como eu podia ter gasto tanto naquilo?
Com o coração cheio de arrependimento, coloco minha mais nova aquisição junto à tantas outras que fiz no passado e me arrependi. Num cantinho do meu guarda-roupa todas as peças compradas num momento de impulso. Mas quando será que eu vou aprender?
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