Jamais serei como as folhas secas que caem mortas no chão... Voarei por entre os ciprestes e chegarei a um lugar onde talvez ninguém me encontre, não importa. Recuso-me permanecer no ponto de partida; prefiro a solidão à mesmice.

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EDIFÍCIO CAMBYÇARA




                                *Este texto foi inspirado no Edifício Holiday, situado em Boa Viagem, Recife-PE


Não sei quando comecei a exalar esse estranho cheiro de coisa velha. Talvez quando o prédio em que moro começou a ficar decrépito junto comigo. Ria de meu avô quando ele dizia que gente velha fedia e deveria tomar banho a cada cinco minutos. Somente hoje entendo porque ele se banhava em continuação, porém tomava um banho completo somente aos domingos.O peso da velhice impede qualquer tentativa de locomoção, principalmente aventuras debaixo d'água; mesmo num simples chuveiro. Hoje me encharco de talco e desodorante. Mantenho minhas roupas razoavelmente limpas, mas não sei como tirar esse odor de guardado. Também não consigo tomar banhos todos os dias; minha artrite me impede. E assim como meus antepassados, apoio a bengala já gasta na parede de azulejos antigos e lavo-me até onde minhas forças podem suportar, sentindo-me razoavelmente fresco, mas exalando eternamente aquele maldito cheiro de coisa esquecida, enxofrada. Sinto o perfume de meu avô entranhado em minha pele, e lembro-me dele como se fosse hoje. Eu, parado na estação, segurando a mala com as mãos nervosas, o olhar perdido na saudade que eu já sentia de minha terra. Ele passou a mão rugosa em meus cabelos e deu-me um beijo com os olhos úmidos. Em breve eu seria um doutor, como ele o foi. A universidade me esperava na capital e eu teria de me cuidar sozinho, mas estava feliz, finalmente sentiria o gosto da liberdade e possuiria um apartamento estalando de novo pertinho do mar todo para mim.

Hoje tenho setenta e cinco anos, meus vizinhos já não são aqueles de um tempo. Os estudantes tomaram outro rumo e as famílias abastadas que vinham veranear no litoral, pouco a pouco, foram abandonando a cidade, transferindo-se a outras praias, menos caóticas, fugindo do progresso. Eu permaneci. Acompanhei cada tijolo, cada pedra e colher de cimento desse maldito progresso. O prédio de luxo, arquitetura de vanguarda, apodreceu como o meu corpo: eu tenho rugas, o edifício apresenta rachaduras, eu odoro à naftalina, ele à mofo e promiscuidade. Somos companheiros de vida, feitos um para o outro. Nunca me casei, não quis ter filhos, tenho um compromisso com o meu apartamento, testemunha de uma vida inteira, provavelmente meu futuro túmulo.

Fiz aniversário há poucos dias, mas ninguém pareceu se lembrar. Melhor assim, não há o que festejar num corpo marcado e claudicante. Sou passado, coisa velha, traste encostado nun canto que ninguém vê, ou finge não perceber. Não vejo a necessidade de um bolo de aniversário ou de chapeuzinhos cônicos e coloridos reafirmando o meu estado de retardamento. Não conseguiria soprar as velinhas sem cuspir o glacê da torta. Prefiro ser esquecido, eu mesmo gostaria de me esquecer, mas não posso. MInhas juntas me recordam a cada minuto que eu sou um amontoado de ossos porosos. Deparo-me com a minha figura grotesca todos os dias no espelho e tento não pensar no quanto fui belo. Minha pele, antes macia e tônica, agora parece feita de papel; rasga-se ao menor movimento, deixando-me marcas horrendas que já não posso remediar. Fui forçado a me aceitar, o tempo parece se bom professor. Só não consegui me habituar à minha idade. Meu corpo flácido não acompanha a minha mente ainda jovem. Sei apreciar uma bela mulher quando a vejo, mas não tenho mais dezoito anos e nem lembro mais da última vez que tive uma em meus braços, nem se era moça ou prostituta. Apesar de não reconhecer mais a minha virilidade, ainda as desejo; eis a grande tragédia da minha vida.


Deixei meu minúsculo apartamento às sete e meia da manhã. Uma das coisa que aprendemos com a velhice é que o sono vai nos abandonando gradativamente, até desaparecer por completo, obrigando-nos a memorizar as rachaduras no teto às três da manhã, com os olhos vidrados no infinito. Deitava-me tarde e acordava com os primeiros raios de sol. De rosto lavado e dentadura escovada, encontrei-a junto à porta, no corredor claustrofóbico do nosso estimado prédio. Em meio a tantos apartamentos amontoados num mesmo andar, ela se destacava de todos os outros moradores. A camisola deliciosamente vulgar ainda colada ao corpo mostrava sem pudores suas formas apetitosas, denunciando seu ofício.

- Bom dia, seu Antunes!


Até mesmo pela manhã sua voz deliciosa, nunca acreditei que uma mulher pudesse demonstrar sensualidade com o hálito mal cheiroso da madrugada. Marli era assim: exalava pecado e volúpia no olhar até mesmo em horas diurnas.

- Já de pé, menina?

Foi essa a única frase que consegui compor; ridicularmente paternal. Achei menos humilhante fazer o papel de pai que de velho babão.

- Tô "moída" hoje! Se não bastasse o "programa" de ontem, ainda tive que acordar cedo... eita vida de merda!
- E por que não vai dormir, filha?
- Tenho que fazer faxina nessa porcaria de casa. Não posso receber minha irmã assim, né? Ela não sabe que sou puta. Pensa que trabalho numa loja.

Um vento frio entrou pelos combongós da parede escancarando a porta de Marli. Senti o cheiro barato do eucalipto espalhando-se pela pequena sala. Com os braços finos ela passava com insistência o esfregão no pavimento ensebado; um movimento repetitivo e violento, como se aquele detergente fosse capaz de limpar também a sua reputação, apagando de vez as dolorosas marcas no corpo e na alma. Como eu, viera do interior, fizera das ruas a sua faculdade e , sem diplomas nem láureas, sustentava a si e à família distante.

- E como vai fazer com os clientes, filha? Ela pode desconfiar...
- Não sou dessas putas desavergonhadas não, Seu Antunes! O senhor já me viu trazendo cliente aqui pra dentro de casa? Nisso sou muito família: da porta pra fora faço o meu trabalho direitinho, mas quando entro em casa, sou só a Marli. Não gosto de misturar as coisas não. Os clientes, eu atendo na rua mesmo, no horário comercial, pra não dar na vista. Em suas palavras, percebi uma ridícula nesga de moral despontando em seu peito vulgar. Enquanto ela espanava a imagem de Nossa Senhora na estante, olhei suas coxas mulatas e roliças e quis perguntar à santa por que nós velhos deveríamos penar tanto. Despedi-me de Marli desejando-lhe boa sorte. Foi o que consegui dizer sem tirar os olhos de sua carne bronzeada.
Abotoei meu casaco com os dedos trêmulos, o vento daqueles corredores me dava calafrios e, apesar do clima tropical, eu sentia muito frio - o frio da morte que ronda todos os velhos. A lâmpada perto do elevador estava queimada há quase um mês e ninguém se dispunha a trocá-la. Estava exausto de transitar no escuro e ter que tatear pelas paredes frias. Contei o dinheiro no bolso, dava para pagar o condomínio e ainda me restariam alguns trocados. Aproveitaria a ocasião para reclamar ao novo síndico. Ele teria que me escutar, sempre paguei em dia, oras!
Entrei no velho elevador com uma apreensão que me acompanhava sempre que me deparava com aquela geringonça carcomida. O amontoado de ferro e cabos de aço que mais parecia uma lata de sardinha, parou no nono andar. O ar cheirava a ferrugem e um rapazote de mais ou menos dezessete anos entrou apressado como quem não pode perder o último trem para um lugar distante. Estava vestido como os garotos da sua idade, mas tinha os olhos nervosos e as mãos frias. Pude sentir a frieza de seu corpo mesmo sem tocá-lo. O capuz do casaco deslizou da sua cabeça, mostrando um rosto pálido e nervoso. Apoiei-me em minha bengala e aproximei-me dele: minha rigorosa educação me impelia a ajudar qualquer pessoa que estivesse passando mal, e aquele menino tinha ares de doente.

- Precisa de ajuda, meu rapaz?
- Passa tudo, velho!

Apesar de conviver todos os dias com a minha figura senil, ainda não havia me acostumado a ser chamado de velho. Soava-me quase como uma ofensa, uma expressão que cancelava toda a experiência que eu acumulara em minha vida, como se todos os meus malditos anos bem vividos não tivessem valido nada. A palavra "velho" nunca me agradou: até os museus tem seu valor, mas um ancião para a sociedade é tal qual lixo: inútil e sujo!

- Chamo-me Antunes, rapaz...
- Deixa de papo e passa logo a grana, velho otário!

Não sei como ele sabia que eu tinha dinheiro. Provavelmente não sabia, nem tinha noção do que estava fazendo ao tirar uma faquinha do bolso. Que mal poderia eu fazer àquele garoto? Com minhas forças reduzidas à zero seria incapaz de reagir, mesmo se ele estivesse desarmado.

- Não tenho nada, moleque!

As mãos ágeis do rapazote encontraram rapitamente o pacotinho de dinheiro no bolso da minha calça. Nunca pensei que dentro do prédio que um dia fora sinônimo de glamour , eu devesse tomar cuidado com assaltos. Já tinha ouvido falar de delitos piores, mas nunca acreditei. Um pacotinho com algum tipo de erva caiu do bolso do garoto, ele o apanhou rapidamente e o guardou junto aos meus míseros reais. Preferi não divagar sobre o conteúdo daquele pacote, melhor pensar que eram ervas medicinais. Ainda acredito na ingenuidade das pessoas. Só não acredito que a educação tenha acabado. Oras, me chamar de velho...maldito moleque!

A porta do apartamento seiscentos e dois era a mais bonita de todo o edifício. O tapete bordado dava um falso ar de nobreza ao local. O síndico do prédio, um homem gordo e de bigodes fartos, atendeu-me meio sonolento e eu fiquei ali parado por um longo minuto sem saber o que dizer.

- A essa hora, Antunes? Faça-me o favor! O que você quer?
- A lâmpada do meu andar...está queimada.
- Eu já disse que vou providenciar, o que mais quer que eu faça?
- Faz quase um mês que estou esperando.
- Sabe quantos condomínios atrasados eu estou esperando? São tres mil moradores, quase ninguém paga...Você acha mesmo que dá pra administrar esse cortiço sem verba? Ou vai querer que eu tire do meu bolso?

A idéia de reivindicar meus direitos desapareceu quando o administrador, balançando a pança preguiçosamente, me pôs a par da real situação do prédio. Com mais de quarenta por cento de moradores inadimplentes, o pobre homem pouco poderia fazer. Engoli em seco, meu estômago vazio pelo jejum matinal começava a reclamar. Apoiei-me forte na bengala e calei-me. Não pude dizer a ele que não teria como pagar o condomínio daquele mês. Sei também que não adiantaria contar-lhe a história do assalto, fazer-me de vítima. Se os moradores não se chocaram nem mesmo com o recente assassinato de um inquilino, certamente não ligariam para o meu drama. Eu é que fui estúpido, quem mora no edifício Cambyçara não tem o direito de ficar circulando com dinheiro no bolso. Despedi-me dele sem nada dizer e ainda prometi voltar com o dinheiro do mês. Parei cansado no meio do corredor, sentei-me numa cadeira de vime esquecida num canto, descansando um pouco o meu corpo alquebrado. A grande algazarra de almas apressadas e crianças reclamando a primeira refeição do dia não me incomodava mais. Eram anos que morava naquele lugar, aliás, séculos! Todo aquele sarrabulho de coisas e pessoas de origem duvidosa me era absolutamente normal. Olhei ao meu redor e descobri o esqueleto daquele que um dia fora uma morada nobre. Nunca tinha parado para olhar os fios desencapadosno teto mofado. As infiltrações desciam pela parede formando desenhos pútridos, uma espécie de tatuagem esverdeada difícil de ser eliminada, dessas manchas que impregnam o ar e a mente.

Mais à frente, no mesmo andar em que morava o novo síndico,pude sentir o cheiro de sangue do vizinho assassinado. A marca ainda estava lá, não se via, mas se sentia. Aconteceu de madrugada, mas ninguém pareceu escutar os estampidos. Seis tiros, todos na cabeça. O prédio nem se abalou com os ruídos da morte. Nunca vi nada de estranho naquele rapaz, também tentei imaginar que ele usasse ervas medicinais, mas o pó branco que ele supostamente consumia custava muito mais do que a sua própria vida.


Pouco a pouco as portas se abriam, lentas e ruidosas, ainda com cheiro de cama e pecado.

Nem todas as moças eram como a Marli, a maioria trazia trabalho pra casa e as paredes finas denunciavam a pouca vergonha que se escondia em cada cubículo daqueles longos corredores. No começo o entra e sai de estranhos causou protesto dos vizinhos, mas o tempo encarregou-se de transformar o fato numa coisa trivial. Jovens bem apessoados, senhores de cabelos brancos, remediados e vagabundos. Homens perfumados e mal-lavados. As jovens prostitutas aceitavam qualquer tipo de cliente, desde que pudessem pagar seu minguado cachê, mesmo porque as mais experientes não estavam

dispostas a perder tempo com gente suja ou mesquinha, dirigiam-se diretamente à avenida, selecionando uma clientela melhor.



Se minha mãe estivesse viva teria uma síncope ao saber que divido o mesmo teto com esse tipo de gente. Prostituição,homicídio, inadimplência e tráfico; essa era a minha realidade; e eu que cheguei aqui na flor dos meus dezoito anos, exibindo meus cobres, vivendo no luxo, aproveitando o melhor que a cidade poderia me dar. Lembro tão bem dessa época. . . O prédio imponente cheirava a novo, a tinta fresca reluzia com os

raios de sol que chegavam diretos à sala, sem a barreira dos grandes arranha-céus que existem hoje. Conheci outros tantos rapazes que, assim como eu, tinham vindo estudar na grande cidade. As luzes dos restaurantes e boates faiscavam diante de nós, atraindo a nossa atenção e a nossa mesada. Mulheres de todos os tipos caíam nos braços dos “estudantes matutos”. Essa era a nossa alcunha, praticamente virgens, nos deliciávamos com aquelas mulheres maduras e sedentas de dinheiro. Não me lembro quantas vezes frequentei a “boite voadora”, uma espécie de bordel disfarçado de bar. A luz era difusa e quente e ali passávamos a maioria de nossas noites insones. Os meus amigos se formaram, viraram doutores;eu continuei a deleitar-me nos braços das meninas. Gostava demais da boemia para me aprisionar a um canudo. Tive vários empregos, dos mais baixos aos até bem remunerados, mas meu avô morreu desgostoso, não segui suas recomendações, não virei o advogado que ele sempre sonhara. Deixou-me apenas o apartamento em que hoje moro e uma casinha simples num bairro afastado, o resto da herança destinou à igreja. Deixei de ir à missa. Hoje vivo do aluguel daquela casa, no fundo ele sabia que eu, de algum modo, teria que me sustentar na velhice. Ele também conhecia as delícias de viver em meio às mulheres e pôde imaginar que eu talvez me deixasse levar

pelo gosto do pecado. Tinha certeza que um dia eu exalaria o mesmo odor ocre que ele emanava. Meus colegas de juventude nunca mais me procuraram, abandonaram-me ao perceber que eu não chegaria a lugar algum. Hoje não tenho amigos, mas não me arrependo de nada na minha vida. Vivi intensamente, bebi na boca das mulheres mais soberbas da cidade, fumei cigarros e charutos, dirigi caminhões e limpei latrinas. Sempre

fui livre. Meus cabelos brancos me deram um certo respeito, sou o simpático “Seu Antunes”, o vovô de todos, aquele que não faz mal à ninguém. Eu vivo a minha neutralidade opaca, sem sal. Estou bem assim.


Voltei ao presente pelo cheiro forte do meu hálito. Minha boca amargava. Precisava comer algo. O térreo era o lugar mais animado do prédio. Os bares e pequenos negócios poluíam todo o quarteirão, mas estávamos tão habituados que não conseguíamos viver sem eles. A

falta de higiene me preocupava, mas após todos aqueles anos aprendi a suportar a sujeira também. Rodeei uma pilha de lixo molhado e debrucei-me no balcão da barraquinha de sempre. Seu Feitosa estava lá; pachorrento e sujo, com uma toalha de prato escanchada no ombro peludo, trajando sua nojenta regata que um dia fora branca; com uma tosse crônica que o acompanhava desde os tempos de mocidade. Pedi um café com leite. Ficou pronto rápido como sempre, veloz e ralo, com a nata do leite gordo boiando na superfície do copo. Parecia água suja, mas era delicioso. Pedi um brebote qualquer para acompanhar. Mordisquei o misto quente com dificuldade, o pão borrachudo ainda estava frio, mas eu gostava assim, ou aprendi a gostar. Ia ali todos os dias, não tanto pela refeição, mas pelo prazer de ver gente, de jogar conversa fora com os comerciantes, de me sentir ainda vivo e participante.


— O que me conta, Feitosa?

— Que te devo contar, Antunes? A gente trabalha pra esses vagabundos, pra essas raparigas e no fim do mês não sobra nada. A coisa ‘tá preta, a fiscalização tá querendo montar na gente, nem sei onde tudo vai parar. . .


Eu estava de acordo com a fiscalização, estabelecimentos daquele tipo deveriam ser interditados, eu nem deveria comer ali, mas àquela altura da vida, nada mais me fazia mal. Era a minha gente, companheiros de miséria, pessoas caídas no esquecimento como eu: sem parentes, sem passado e provavelmente sem futuro.

— As coisas melhoram com o tempo, meu caro, sempre

melhoram. . .

— Se melhorarem como melhorou esse prédio. . .

Dei uma risada sem convicção enquanto o pão buchento grudava em meus dentes postiços e eu dava o último gole no meu café aquoso. Meti a mão no bolso para tirar os últimos trocados que tinha. Esqueci-me completamente que tinha sido depenado por um punguista. Um "punguista". . . meu Deus como sou velho! O moleque tinha razão. Parei no tempo e no espaço, utilizando vocábulos do tempo do ronca! E lá estava eu de novo despejando expressões dentro de mim mesmo que ninguém sabia o significado. Pedi para o Feitosa pendurar a conta. O seu silêncio fez-me supor que a resposta era positiva. Estava devendo o condomínio e o café da manhã.

Um moleque maltrapilho passou correndo perto de mim, quase me derrubando. Nas mãos uma garrafa de cola e no seu encalçoalguns turistas furiosos. Nunca consegui me habituar com a pouca idade dos marginais modernos. Garotos de calças curtas que em vez do mingau ou do leite alimentavam-se do inebriante cheiro do entorpecente. Continuei caminhando, o mar soprava uma brisa calma, carregada de maresia. Admirei os belos coqueiros que adornavam a rua, uma cidade linda. Apaixonei-me desde o primeiro momento em que a vi. Amava-a ainda, mas sentia as lágrimas queimarem meus olhos senis ao ver no que ela se transformara. As barracas de quinquilharias, o esgoto correndo pelas calçadas velhas, o descaso das autoridades com a higiene e a segurança do cidadão. . . a gritaria dos ambulantes me fez acordar do meu torpor. Era inútil ficar ali parado imaginando o que a cidade poderia ter virado ou o que ela foi no passado. Tudo mudara, inclusive eu. Não me restava outra alternativa senão retornar ao meu insalubre apartamento, ligar o televisor e fazer de conta que nada tinha acontecido. Aquele maldito elevador da década de 1950 recebera poucas manutenções em seu tempo de vida,

eu tinha certeza de que ele estava mais carcomido do que eu. Nunca confiei naquilo. Enquanto ele subia lento e frouxo, eu tentava não pensar na violência dos seus rangidos. Podia sentir os cabos de aço se desonerando, a caixa metálica se retorcendo como se fosse se desmanchar. Suspirei aliviado quando cheguei no meu andar. Senti-me feliz novamente em retornar ao meu corredor longo e escuro. Abri as janelas do meu apartamento e respirei o puro ar marinho. A vista era espetacular; o lixo e a confusão das barracas de comida pareciam se desvanecer de onde eu estava. Ouvia somente as palhas dos coqueiros e os carros buzinando ao longe. Pela primeira vez em todos aqueles anos eu entraria para a lista dos devedores do condomínio, e eu era do tempo em que um fio de bigode valia tanto quanto um documento assinado em cartório. Eu era realmente velho. Maldito garoto que havia me roubado. Nem sequer pensei em ir na delegacia registrar ocorrência. Ririam de mim, só um estúpido como eu para se escandalizar com os crimes no edifício mais famoso e mais decadente da cidade. Eu era um otário, um velho otário, como dissera aquele moleque.Não quis assistir aos programas matutinos, tinha um amargor na boca e na alma que me tiravam o gosto até pelas coisas mais simples. Faltavam dez dias para o fim do mês. . . Até lá eu teria que me arranjar só Deus sabia como. Nunca fui de guardar dinheiro, eu não tinha reservas nem poupanças, sempre fui um "bon vivant" e mesmo com todas as agruras de uma velhice pobre, não me arrependo de nada. Eu vivi e agora entregava minha vida à providência divina. Meu avô me ensinara a tomar banho todos os dias e a confiar no ser celestial. Mas no alto dos meus quase oitenta anos nem sei mais em que acreditava; talvez eu tivesse perdido a fé em tudo, até em mim mesmo. Escascavilhei as gavetas da velha cômoda e tirei fora uma caixa de calmantes. Era tanto que não os tomava, nem notei se estavam válidos. Não me importava. Tomei acho que cinco ou seis, com bastante água. Queria dormir por todos os dez dias, sem ter que pensar

em nada, principalmente na vergonha de não ter dinheiro para pagar as contas. Talvez um anjo viesse me recolher, talvez eu não precisasse mais da bengala. Não sabia nem o que estava fazendo ou pensando. Deitei-me na minha ampla cama de casal embalado pela brisa do mar. Nem sei quantos dias dormi. Talvez três ou quatro. O gosto azedo na boca denunciava o vazio em meu estômago. Sentia todas as suas rugas contrairem-se em espasmos. Olhei ao redor para me certificar onde estava. Era o meu querido apartamento. O meu lar adorado. Levantei-me com dificuldade e arrastei o meu corpo decrépito até o banheiro. No espelho notei que eu tinha envelhecido uns cinco anos pelo menos. Esse é um dos lados surpreendentes da velhice, a cada dia se envelhece um ano e a diferença é notável! Senti-me extremamente sujo, como não me sentia há décadas. Sentando num banquinho de madeira, acomodei-me debaixo do chuveiro, dispensando um minuto para cada ano de minha vida, lavando mais de meio século de vivência. Escanhoei-me e senti-me ainda mais velho pensando essas palavras antigas, mas eu gostava do verbo “escanhoar” me fazia lembrar do barbeiro da esquina que me fazia barba, cabelo e bigode. Quantas saudades! Era um ofício que não existia mais. Dessa vez repeli o talco que intensificava ainda mais meu odor de coisa antiga. Encharquei-me de pós-barba e penteei os cabelos brancos. Tinha sede. Bebi direto da caixa os resíduos de um suco de laranja guardado na geladeira. Talvez estivesse ali há um mês, nem percebi que gosto tinha, só que estava gelado, como os meus pés. Pus os sapatos e saí pelo corredor.
Haviam trocado a lâmpada. A luz pareceu-me exageradamente forte, quase desejei a escuridão de antes. Uma silhueta apareceu-me ao longo do corredor, ajeitei meus óculos de grau e vislumbrei a sensual figura de Marli. Linda como sempre, mas sem seus habituais vestidos agarrados ao corpo. Exibia uma saia comprida e uma blusa muito comportada, abotoada até o pescoço. Em seu rosto nem sinal da escabrosa pintura de bordel. A boca pálida não ostentava o vermelho-sangue do batom e os cabelos estavam presos num coque.


— Bom dia Seu Antunes. Esteve sumido.

— Marli, minha cara, o que houve com você? Abandonou o ramo?

— Pssiiiuuu. . . cala a boca, homem! Pra todos os efeitos sou uma moça de família. Minha irmã tá aqui em casa.
— Ah, entendo. . . Mas como você vai viver sem fazer seus program. . .

— Marli, com quem você está falando?

— Rosalba, eu. . . é. . . esse aqui é o senhor de que te falei.

— É esse?

— Antunes mocinha, muito prazer.

— Assim tão velho, Marli?

— É um homem respeitador, tem uma boa aposentadoria e gosta de mim, Rosalba. Vai ser bom marido. . .

— Marido?!!!

Senti meu sangue gelar, alguma coisa me dizia que Marli não estava brincando e eu estava metido em uma enrascada.
— Bem. . . pelo menos ele é asseado, cheira bem. Parece-me um homem de respeito. Parabéns, minha irmã. Fico feliz em saber que você tem um homem ao seu lado. Muito prazer, senhor. Vou para o meu quarto, está na hora do meu rosário.

Nos vemos mais tarde. Acompanhei com os olhos descrentes a sombra da beata que arrastava o saião longo até o quarto. Marli segurava minha mão. Estava aflita, digerindo ainda a aprovação da irmã.



— Obrigada, Seu Antunes. Ela gostou do senhor. Não quero que ela pense que sou uma mulher vadia na capital. . . .

— Mas. . . terei que me casar? E você nem me avisa?

— Não Seu Antunes, é só Vngimento. Só enquanto ela estiver aqui em casa. O senhor não vai se recusar a me ajudar, né? É muito importante pra mim.

Lembrei-me por um instante que não tinha nenhum centavo no bolso, o condomínio estava atrasado e minha despensa vazia. Por toda a minha vida aprendi a me virar, tirando daqui e

dali o meu sustento, sem recorrer à ajuda de ninguém. Sempre fui inteligente e honesto. Mas há uma linha muito tênue entre a honestidade e o instinto de sobrevivência. Àquela altura da minha vida eu não poderia ter tantos pudores. A velhice nos traz a liberdade de sermos sinceros com nós mesmos e nos permite dizer o que nos vem à cabeça. Pela primeira vez aproveitei de minha idade avançada. Sem nenhum remorso.


— “Trezentos contos”! E estamos combinados! Serei seu marido até quando você quiser, filha.

Meu avô tinha razão, os velhos fedem. Eu naquele dia perfumava como filho de barbeiro. Era um homem decente. Ele se orgulharia de mim. Eu entraria para a história daquele prédio pela minha alta periculosidade. Eu era um homem esperto! Tive meus serviços pagos por uma prostituta. Estava ficando realmente velho, os tempos haviam mudado. E muito!



-Fim-








Após muitos anos escrevendo para mim mesma, surgiu a oportunidade de publicar alguns dos meus contos, gênero pelo qual tenho predileção, através de uma comunidade da internet voltada para a literatura e para jovens escritores. Foi nessa comunidade que ganhei o concurso de contos com o texto "A Carne" e pude publicar dois desses contos na revista O Verbo, em julho de 2009. O que foi para mim uma experiência muito gratificante.
Atualmente participo da revista independente Textura, que seria uma espécie de continuação do projeto O Verbo,  com o texto "Edifício Cambyçara" e a poesia "O imperador está só. As revistas estão à venda em versão para download ou versão impressa no site  lulu.com

Um comentário:

José Roberto Araújo disse...

Gostei bastante. O Sr. Antunes ainda é vivo?