Domingo, Abril 22, 2012

Vendi minha alma

Vendi minha alma ao diabo e só agora percebo a gravidade do meu insano ato. Isso mesmo, caro amigo. Escrevo-lhe essas nervosas e mal traçadas linhas propositalmente piegas no afã de desabafar e registrar o meu drama. É assim que me sinto: extremamente cafona, ridicurlamente ultrapassado. Deixei-me levar por uma idéia velha e "batida". Nenhuma novidade em pactuar com o "capiroto", sei disso. Mas não resisti. Não que eu seja uma espécie de Dorian Gray moderno que põe a vaidade acima de todas as outras coisas. Não sou tão vaidoso assim. A fealdade para mim é relativa e até aceitável; depende dos olhos de quem a vê. Tampouco o fiz por obter a vida eterna, como fazem todos aqueles que aceitam um acordo com o "canhoto". Não meu amigo, não tenho a intenção de ser eterno... Não temo os chifres pontiagudos do bicho, nem as labaredas assassinas da sua antessala. Seu rabo longo, sua língua bifurcada e seu tridente afiado não me amedrontam tanto. Não é esse o caso. Também não creia que sou um herói que nada teme, um valentão que enfrenta os perigos de peito aberto - Nem tanto ao mar, nem tanto à terra - se é uma coisa que sou é sensato. Sei que contra ele não tenho chance.

Passo as noites em claro, virando de um lado para o outro, enquanto minha mulher dorme o sono dos justos, confortável debaixo do edredom quadriculado, presente de casamento. E quando toco aquela maldita coberta sinto todos os pêlos do meu corpo arrepiarem-se, até nos lugares mais recônditos! Tenho pesadelos, mesmo acordado, sinto vontade de sair correndo pela madrugada, nu como São Francisco, renunciando a todos os bens que possuo, ao conforto e à minha vida inteira. mas não posso me dar a esse luxo. Tenho um contrato a respeitar. Sou homem de palavra, perfidamente honesto. Sou um banana, meu caro, um borra-botas. Anos frequentando a missa, comungando e confessando meus pecados.O fiel preferido do padre Olegário...Para quê?! Para ver a minha alma dissolver-se no ácido pútrido daquela força maligna! Sou um fraco, estimado amigo. A mais fraca das criaturas.

Minha esposa dorme, são três horas da manhã. Eu aqui de pijama e chinelos, enrolado numa manta, encolhido na cozinha fria, para não acordá-la. A única coisa que posso fazer é escrever-lhe, alguém deve conhecer o meu martírio, tenho que dividir a minha angústia. Meu desabafo deve trazer-me um pouco de alento. Acendo o fogo e espero a água ferver. Jogo um saquinho de chá dentro, camomila. O papel do infuso faz um turbilhão na água fervente. Vejo um redemoinho sinistro tomar conta da chaleira, respingando em minha pele gotículas incandescentes de lava. Jogo fora imediatamente a maldita bebida no ralo da pia, com chaleira e tudo. Posso sentir o cheiro do enxofre alastrando-se pelo ar. Minha mãos tremem, não sei se terminarei esta carta, caro amigo.  Preciso de um trago, encontro uma garrafa velha com o resquício de um licor ainda mais antigo. Não me pertence, mas preciso relaxar. Nem sei onde estão os cálices, bebo direto do gargalo as últimas gotas da bebida, nem sei o que estou fazendo. Afogo a alma que já não é minha naquele líquido rubro...doce alívio. Tenho medo. Não sei o que será de mim amanhã. Por enquanto o meu cobrador está calado, mas sei que deverei pagar o seu preço, o preço que vale minha pobre alma.

Estou de novo no quarto, escreverei aqui mesmo, não tenho coragem de enfrentar o "animal" sozinho. Ao lado de minha mulher adormecida lembro dos anjos que nos uniram e nos convenceram ao altar. Todos os amigos compareceram, os jorros de arroz cobriram nossa cabeças com a boa fortuna dos enamorados. Éramos felizes. Possuíamos juventude, desejo e otimisto. Mesmo no café da manhã, antes de pegar o ônibus, nos beijávamos realizados, comíamos pão com mortadela e arrotávamos faisão. Um período duro, mas se eu pudesse voltar atrás, não abandonaria o nosso doce pardieiro por nada desse mundo. Eu era um homem livre, podia até voar se quisesse, perdoe-me o desatino, mas hoje sinto-me como se tivesse uma grande e pesada bola de ferro acorrentada a meus pés. O pior de tudo é que esses grilhões são invisíveis, só eu sei o quanto me machucam; sinto a ferida aberta, purulenta, latejando em minha entranhas. Ah, meu amigo, você não imagina os tormentos que tenho que suportar. Caminhando devagar para que o "dito cujo" não perceba a minha presença, fazendo todas as suas vontades, esgueirando-me pelas frestas da casa igual aos bolões de poeira que se escondem debaixo dos móveis com medo de ser varridos. Tal qual um criminoso, tudo para não contrariá-lo. Quando dirijo meu carro último tipo sinto que ele me observa do banco de trás e a qualquer momento posso morrer ali mesmo, atrás do volante. Uma morte lenta e cruel, agonizando em meio às ferragens, como um porco na hora do abate. Minha carteira recheada de cédulas polpudas e cartões de crédito reluzentes não me fascinam mais como antes. O maldito brilho do dinheiro agora me atordoa, não sinto mais prazer em usá-lo, sinto calafrios a cada compra. Mas minha mulher está feliz, seu sorriso me faz sorrir, ver seu rosto angelical me faz esquecer por um minuto da minha desgraçada existência. Como é bela a minha Ângela, celestial até mesmo no nome...você não imagina, meu amigo, o quanto ela mudou nesses últimos tempos; cada vez mais paciente, mais sábia, mais carinhosa.

Ainda não tivemos filhos, não tínhamos onde cair mortos. Mas agora que temos uma condição financeira estável, ela me propôs começar a pensar num primogênito. Sorri meio sem jeito, beijei-a disfarçando em meu rosto a expressão de terror. Como posso eu fazer planos para uma vida futura, colocar um ser no mundo sabendo que estou condenado? Não posso. Não é justo! Essa pobre criatura herdaria minha dívida, arrastaria sua pobre alma pelos subterrâneos do inferno, respirando o ar poluído de satanás! Repito, não posso! Pobre Ângela devo negar-lhe o prazer da maternidade. Mas é justo que seja assim, faço por amor, meu caro, por amor... O demônio tem mil faces e seus estratagemas são infinitos. Não se surpreenda se eu lhe disser que presenciei o "maldito" enfiado no meio das carolas, ao lado do sacerdote na praça, em frente à todos. Ele nada teme, exibe um olhar doce e triste, enganando àqueles que estão por perto. E isso não é o pior, pasme com o que vou lhe dizer: ele vai à missa todos os dias! Não, não estou brincando, não quero que pense que estou zombando da sua inteligência. O "desgraçado" se infiltra até mesmo em terreno santo! E não são poucas as vezes que me acordo em sobressalto pela manhã bem cedo com Aves-Marias estridentes e ladainhas distorcidas que se repetem do início ao fim ao longo do dia. Vejo rosários e imagens espalhadas pela casa, os santos com suas bocas de gesso gargalhando da minha aflição, zombando de mim. Mas o pior não são essas visões, você não pode imaginar o que significa comer sob o olhar maligno da criatura. Cada garfada, cada porção a mais que ponho em meu prato minguado parece incitar sua ira. Suas narinas bufantes controlam todos os meus movimentos como verdadeiros olhos. Sua expressão horrenda lembrando-me o azinhavre que se forma nos antigos tachos de cobre dos ciganos me fixa, como se eu fosse um criminoso. Sentiria até indigestão, caro amigo, se comesse com todos aqueles olhares maléficos em cima de mim. Por isso passei a jejuar, alimentando-me como um passarinho, satisfazendo-me de migalhas e sobejos da minha esposa. Ela não compreende meu drama, coitada, nem imagina a crise pela qual estou passando. Atribui o meu desânimo à anemia e à falta de vitaminas. Desde então me entope de suplementos e mezinhas, fígado mal passado e gemada quente com canela. Mas o seu bem querer à minha pessoa só aumenta o meu enjoo e acirra o meu desespero.

Não quero mais resistir, estou cansado. Não tenho domínio nem mesmo sobre as portas de casa. Vivem sempre abertas. Como num terrível pesadelo, o sol iluminando o meu rosto abatido, o vento rodopiando em toda a casa, fazendo a curva em nosso quarto. O vento do desespero, do medo. Cubro-me, mas a coberta não é o suficiente para abrandar meus calafrios. Nem mesmo em dia de chuva o "tinhoso" baixa a guarda. Escancara as janelas discretamente direcionando o vento gélido até o quarto, diretamente em minha espinha dorsal. Ah, caro amigo, já perdi as contas de quantas vezes me resfriei. Acho que acabei me acostumando às infecções de garganta e ao catarro grosso enchendo-me o peito. Pegar friagem passou a ser uma constante em minha pobre vida. Eu até que tento, juro!  Fecho as janelas, tranco a porta da sala, mas não tem jeito. Encontro-as sempre abertas. E não é só isso; não sei o que pensar quando encontro sacos cheios de lixo ao redor da minha cama. Sim! O danado traz os sacos da cozinha e os deposita em meu quarto! Geralmente o faz quando Ângela não está por perto. Não é a primeira vez que escorrego no chorume que se infiltra pelos ângulos de minha alcova. Corro para limpar tudo, afinal não quero criar confusão com o inimigo, mas a fedentina persiste e minha doce Ângela se volta contra mim, eu sou o culpado!  Talvez sejam as minhas meias sujas ou as cuecas que esqueci de jogar no cesto de roupas... coitada, eu a perdoo, sei que não fez por mal, é somente mais uma das peripécias do demônio que a induz a brigar comigo, causando a discórdia dentro de casa.

Acho que não consigo mais escrever, dileto amigo. Não sei se terei forças para terminar o meu relato. Preciso de outro trago, não posso contar-lhe essas coisas "à seco".  Calço as pantufas de Ângela, o único meio de esquentar meus pés congelados. Tenho a terrível sensação de que estão necrosando, assim como todo o meu corpo.  Pé ante pé chego à cozinha. Não faço barulho, igual a uma alma penada, levitando todos os meus oitenta quilos de puro temor. Nada encontro. A última gota já se evaporou em meu estômago vazio. Não vejo nada além de água em cima da mesa. Quando o sol se põe o "temido" esconde todas as guloseimas da casa, inclusive as bebidas. Não sei onde diabos ele enfia todos os biscoitos, doces e marmeladas, queijos e salgadinhos, pudins e sorvetes...nunca descobri! Cambaleante de frio sento-me à mesinha. Água não está nos meus planos, quero mesmo é encher a cara, esquecer minhas mazelas, entrar em coma alcoólico e acabar com tudo de uma vez por todas. As pantufas extremamente fofas e silenciosas de minha mulher batem em algo no chão. Ali estava! Bebi quase tudo daquela delícia rubra, o fragrante cheiro do vinho deu-me um grande alívio. Senti os anjos que beijavam os meus pés. Bebi outro grande gole como se minha salvação estivesse naquela garrafa. De repente todo o meu corpo começou a esquentar, como se uma grande coberta de veludo me envolvesse dos pés à cabeça. Estou prestes a esquecer todos os meus problemas...qual sensação estranha!  Sinto um fio cortante de vento atingir minhas costas desavisadas. "Ele" está por perto, posso sentir a sua presença. O cheiro de enxofre faz-se presente de novo. Estou desprotegido, meu leal amigo; sem escudos santos, nem patuás. Tenho medo! Penso em levantar-me e retornar ao quarto. Preciso desparacer...mas estou muito cansado de fugir. Não posso continuar escondendo-me como um covarde! Tenho que criar coragem e enfrentar o meu drama. Nunca passou-me pela cabeça em olhar o que havia debaixo da pia. Aquele compartimento sempre fora um mistério para mim, certamente era um simples depósito de detergente e buchas de prato. Mas eu não posso titubear, meu amigo, não desta vez. Derramo não sei quanto na taça, acho que meio litro do recipiente. Tinha achado a embalagem plástica em meio às caixas de sabão.  Não sabia muito bem do que se tratava, só sei que a palavra "perigo" em letras maiúsculas no posterior da garrafa fez-me ter a certeza de seu conteúdo. Sei que estou embalado pelo doce torpor do álcool, mas eu só quero uma coisa: enfrentar Satanás e derrotá-lo!

Minha cabeça dói. Não o vejo mais. Não sei o que estava lhe dizendo antes, meu caro. Tenho a estranha sensação de que as horas andaram adiante sem que eu percebesse. Ah, agora lembro-me! O "bicho" não está mais aqui. Contarei o que aconteceu:

O "tinhoso" chegou como quem não quer nada. Com suas habituais rondas noturnas para controlar os meus passos. Ofereci-lhe uma taça de vinho, vermelho, aveludado, temperado com o conteúdo daquele estranho líquido tóxico. Sorrindo, o "belzebu" recusou minha oferta, mas eu insisti, fingindo-me cordial. E quando estávamos prontos para brindar, eu deixei cair o recipiente de veneno quase vazio no chão. Apressei-me em apanhá-lo, não queria que meu plano fosse por água abaixo. Sorri e com a minha taça cheia nas mãos brindei junto à minha sogra o início da minha liberdade. E eu que estava enrolado naquela maldita coberta que ela nos presenteara no dia do nosso matrimônio. Esvaziamos os copos. Bebemos tudo.  E eu não via a hora de vê-la estrebuchar na minha frente. mas a maldita víbora deu uma gargalhada sonora e longa, como se quisesse me dizer algo.

Descobri que é praticamente impossível enganar o diabo. Pensei que no alto dos seus setenta anos aquele demônio de saias fosse capaz de tudo menos de me envenenar. Quando a minha glote fechou, percebi que a infeliz tinha trocado os copos. Ela sempre foi prevenida, não confiava em ninguém, muito menos em mim. Daquele momento em diante fui acometido pelas piores sensações que um ser humano pode ter antes de encontrar o Pai celestial. Minhas entranhas estavam sendo corroídas pelo fel da morte, o ar faltara em meu pulmões e meus olhos saíam das órbitas enquanto eu vomitava algo entre a cor preta e o cinza chumbo. Não sei quanto tempo sofri, tampouco recordo da expressão de Ângela quando me encontrou naquele estado de semi morte. Escrevendo essas humildes linhas, me dou conta de que não morri, não sei onde está a velha. Talvez tenha mudado de idéia e me socorrido. Agora entendo a sensação de ter avançado no tempo! Não lembro de ter estado no hospital, mas certamente fui salvo pelos médicos e agora encontro-me novamente em casa. Sei que ainda estou na cozinha, sinto cheiro de alecrim, a erva que a danada cultiva em cima da pia. O que me corrói o fígado é o fato de ter ganho um rótulo que não me cabe: o de suicida. Ainda posso sentir a maldita velha zombando de mim e dizendo a todos que tentei me matar por ser um fraco! Até mesmo na minha tumba ela queria me desmoralizar. Mas eu não morri! Maldita hora em que aceitei dinheiro emprestado da minha sogra. Ainda posso ouvir Ângela dizendo: "benhê, não vejo problema algum em aceitar esse empréstimo da mamãe, ela só quer nos ajudar." Acreditei e esse foi o meu erro. A velha me tinha nas mãos e decidira até mesmo quando e como eu deveria morrer. Ainda sinto o gosto metálico na boca, estimado amigo, mas fortunadamente não tenho mais dores. Acho que Ângela está no quarto dormindo, sinto sua respiração, seu perfume. Termino esta carta  e vou dormir nos braços de minha amada. Não sei o que ela tem, parece não me escutar. Está chorando. Ouço rumores de lágrimas ao longe...o que está acontecendo?

Não consigo respirar direito, tenho algo fofo nas narinas que me dão um certo desconforto. Fecho os olhos de repente tamanha é a luz que ilumina meu rosto. Nunca gostei da cor roxa, mas o pouco que consigo abrir dos meus olhos vejo essa roxidão asfixiante...não sei o que está acontecendo. Tenho que entregar-lhe esta carta, meu amigo...

- E esse aí, quem é?

- Mais um que chegou à beira da loucura. Fala sozinho e pensa que está escrevendo uma carta não sei a quem. Diz que fez um pacto.

- Outro?! Mas será possível? Dessa vez é real pelo menos?

- Na minha opinião esse daí surtou de vez. Necessita de tratamento e daqueles intensivos!

- Olha lá, ele está falando sozinho de novo... vou chamar os enfermeiros e...

- Não! Deixe que ele desabafe, é sempre bom deixá-los livres antes da cura.


Tenho sede, tento beber um pouco d'água, mas não sei porque não consigo me levantar. Minhas pernas estão duras, aliás, meu corpo inteiro. Tenho a impressão de que estou vazio por dentro. Sinto meu estômago completamente oco, arrisco até mesmo a dizer que sinto o vento me traspassando. Estou ficando louco? Não me lembro de ter pintado as paredes de azul. Todo esse celeste brilhante e tranquilo me dói os olhos. Vejo enormes e etéreos pedaços de algodão flutuando sobre minha cabeça... tudo por causa daquele maldito pacto!

- Nossa Senhora, mais um caso daqueles!

- Continua dizendo que fez um pacto.

- Com o diabo?

- Antes fosse! Seria mais fácil de consertar. Esse aí é mais uma vítima da sogra.

- Sogra de novo?! Pobre desgraçado...posso imaginar o quanto deve ter sofrido. Está cada vez mais difícil saber quem é mais perverso, as maldades das sogras são de alto nível, pouco a pouco elas estão se igualando ao "esquerdo", um páreo duro!

-Eh sim... o pior é que ainda não percebeu que já está morto. Sabe o que isso quer dizer, né?

- Trabalho dobrado! Serão anos até que ele se convença por completo. A nós anjos cabe sempre a mesma missão!

- Danação! Ops, perdão. Quis dizer... onde estão os clássicos casos de pacto com o demônio?

- Praticamente não existem mais. Lúcifer perdeu o interesse por essas alminhas ocas e vaidosas. Ouvi dizer que ele cansou. Mudou-se para o Oriente médio. Diz-se à boca miúda que ele está feliz, recolhe almas como quem bebe água. Homens-bomba e mulheres imoladas não faltam. O "danado" está rindo à toa!

- Não acredito que ele tenha aberto mão dos famosos pactos... eram míticos!

-Ah isso sim. Tinham lá seu charme. As pessoas que se propunham ao tal acordo eram, em sua grande maioria, grandes mentes. O defeito desses seres é que se deixavam levar pela vaidade, nunca estavam satisfeitos, queriam sempre mais. Perdi a conta de quantas almas ele se apossou nesses últimos séculos. Mas acho que ele se cansou de todo esse "glamour", da forma como seus "negócios" começaram a ser tratados. O "bicho" ficou uma fera quando um escritor famoso lançou aquela história do rapaz que trocou de lugar com o quadro...

- Sim, lembro-me bem. Mas dizem que o próprio escritor tinha lá seus acordos com o maldito.

- Intrigas, meu caro. Simples intrigas.

- Eu ainda acredito na tradição, mesmo do mal. Não tem mais graça desse jeito!

- Tem razão, os tempos mudaram. Lembra de como era emocionante salvar uma pobre alma das garras do "inominável" ?

- Como irei esquecer! Era duro, mas valia a pena. Raras eram as vezes em que falíamos, nem sempre se pode vencer da primeira vez. Quantas almas já salvamos em todos esses anos?

- Milhões, meu caro, milhões! Tenho saudades daquele tempo.

- Eu também. Agora só nos resta organizar tudo e mandar esses loucos ao manicômio celestial. Pobres almas... Além de ver o céu abarrotado de dementes, ainda temos que convencer o Pai que não são simples suicidas. Coitado, esse daí por exemplo, bebeu o veneno por engano.

- Mas bem que ele queria matar a velha...

- Desespero de causa, meu caro, uma alma atormentada. Acho que merece ser perdoado. Mas quem sou eu para decidir...

- Temos que fazer alguma coisa, não podemos ficar de braços cruzados. Vamos falar com Lúcifer!

- Deus me livre, cruz e credo! Ficou louco? Falar com o "maldito"?!!!

- Sim, temos que convencê-lo a voltar à ativa, como nos velhos tempos! E depois temos que falar com as sogras também. Não é possível que elas consigam a proeza de ser mais odiosas que o próprio Satanás. Lógico que elas não tem o poder de apoderar-se  das almas, mas causam um estrago imenso...
Bem, já que você tem medo de falar com o "dito cujo", atribuo-lhe então a missão de falar com as sogras...

- Ahn?!!! Bem, eu... Oriente Médio, você disse, não?


Terça-feira, Abril 03, 2012

Palazzo Cambyçara (Edifício Cambyçara) Traduzido para o Italiano







Questo testo è stato ispirato all’edificio Holiday, situato a Recife, Brasile. Un palazzo di quasi tremila abitanti costruito nel 1957, opera di architettura moderna, di avanguardia. Originalmente fatto per le famiglie benestanti, con il tempo si trasformò in una favela verticale, essendo oggi abitato da persone emarginate, prostitute, piccoli commercianti e anziani. In mezzo al centro del paese, lotta contro la bellezza delle nuove costruzioni, perso in un caos di gente, solitario e abbandonato.
Un monumento alla decadenza, simbolo di un’era ormai dimenticata.
Cambyçara: Nome in lingua Tupi-Guarani che significa donna che allatta, che ama e fornisce l’alimento, dà la vita.


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Edificio Cambyçara



Non so quando ho cominciato a emanare questo strano odore di cosa vecchia. Forse quando il palazzo dove abito ha iniziato a diventare decrepito insieme a me. Ridevo del mio nonno quando diceva che i vecchi puzzavano e dovevano fare il bagno ogni cinque minuti. Soltanto oggi capisco perché si lavava ripetutamente, però faceva un bagno completo solamente nelle domeniche. Il peso della vecchiaia impedisce qualsiasi tentativo di locomozione, principalmente “avventure sott’acqua”; anche di una semplice doccia. Oggi mi riempio di talco e deodorante. Tengo i miei vestiti ragionevolmente puliti, ma non so come eliminare questo odore di roba rinchiusa. Anch’io non riesco a fare il bagno tutti i giorni, la mia artrite me lo impedisce. E così come i miei antenati, appoggio il bastone già consumato nel muro di mattonelle antiche e mi lavo fino a dove le mie forze possono sopportare, sentendomi un po’ più fresco ma esalando quel maledetto odore di cosa dimenticata, ammuffita. Sento il “profumo” del nonno nella mia pelle e mi ricordo di lui come si fosse oggi. Io lì, fermo nella stazione, tenendo stretta la valigia con le mani nervose, lo sguardo perso nella nostalgia che già sentivo della mia terra.  Mi passò le mani rugose nei capelli e mi diede un bacio con gli occhi lucidi. Presto io sarei diventato un dottore come lo è stato lui. L’università mi aspettava nella capitale e io avrei dovuto arrangiarmi da solo, ma ero contento; finalmente avrei sentito il gusto della libertà e avrei avuto un appartamento nuovo di zecca e vicino al mare tutto per me.

Oggi, ho settantacinque anni, i miei vicini già non sono quelli di un tempo. Gli studenti hanno preso un’altra strada e le famiglie benestanti che venivano a villeggiare nel litorale, pian piano hanno abbandonato la città, trasferendosi ad altre spiagge, meno caotiche, scappando dal futuro. Io rimasi li. Accompagnai ogni mattone, ogni sasso e cazzuola di cemento di questo maledetto progresso. Il palazzo di lusso, un’architettura di avanguardia, è marcito come il mio corpo: io ho delle rughe, l’edificio presenta delle crepe, io odoro di naftalina, lui di muffa e promiscuità. Siamo compagni di vita, fatti uno per l’altro. Non mi sono mai sposato, non ho voluto avere dei figli, ho un compromesso col mio appartamento, testimone di tutta una vita, probabilmente il mio futuro tumulo. Pochi giorni fa ho compiuto gli anni, ma nessuno si è ricordato. Meglio così, non c’è niente da festeggiare in un corpo marcato e claudicante. Sono passato, cosa vecchia, un soprammobile dimenticato che nessuno vede o fa finta di non vedere. Non vedo necessità di una torta di compleanno, o di capellini conici e colorati confermando il mio stato di ritardamento. Non riuscirei a soffiare le candeline senza sputare nella glassa  della torta. Preferisco essere dimenticato, io stesso vorrei dimenticarmi, ma ancora non so come si fa. Le mie articolazioni mi ricordano ogni minuto che sono una catasta di ossa porose. Inciampo tutti i giorni nella la mia figura grottesca davanti allo specchio e evito di pensare quanto sono stato bello in passato. La mia pelle, prima morbida e tonica, adesso sembra fatta di carta; si strappa al minore movimento, lasciandomi dei segni orribili che non posso più curare. Sono stato obbligato ad abituarmi, il tempo è buon maestro. L’unica cosa che non sono riuscito ad accettare è il fatto che ho questa età. Mio corpo flacido non accompagna la mia mente ancora giovane. So apprezzare una bella donna quando la vedo, però non ho più diciotto anni, e non ricordo nemmeno quando è stata l’ultima volta che  ne ho avuta una nelle mie braccia, neanche se era di famiglia o di strada. Malgrado io non riconosca più la mia virilità, le desidero ancora; ecco la grande tragedia della mia vita.
            Ho lasciato il mio minuscolo appartamento alle sette e mezza del mattino. Una delle cose che impariamo con la vecchiaia è che il sonno è il primo ad abbandonarci, fino a sparire del tutto, costringendoci a memorizzare le crepe nel soffitto alle tre del mattino, con lo sguardo fisso nell’infinito. Mi sdraiavo tardi e mi svegliavo con i primi raggi di sole.
Dopo essermi lavato e sciacquato la dentiera ingiallita, trovai lei, vicino alla porta, nel corridoio claustrofobico del nostro estimato palazzo. In mezzo a tanti appartamenti in un unico piano, lei si distaccava da tutti gli altri abitanti, era veramente la luce di quel posto. La camicia da notte deliziosamente volgare ancora incollata al corpo esibiva senza pudori le sue forme appetitose, denunciando il suo mestiere.

— Buon giorno, signor  Antunes!

Anche nel torpore del mattino, la sua voce era deliziosa. Non immaginavo che una donna potesse dimostrare sensualità col mal alito dell’alba. Marlì era così, emanava peccato e voluttuosità anche nelle ore diurne.

— Già in piedi, figliola?

Quella è stata l’unica frase che sono riuscito a comporre; ridicolamente paternale. Era meno umiliante fare la parte del padre che di vecchio sporcaccione.

— Sono a pezzi! Dopo la serata di ieri in “pieno servizio”, ho dovuto svegliarmi presto… Che vita di merda, la mia!

— E per che non torni a dormire, figlia?

— Devo pulire questa merda di casa. Non posso ricevere così la mia sorella, non crede? Lei non sa che faccio la prostituta, pensa che lavoro come commessa.

            Un vento freddo entrò da un finestrino nel muro del corridoio spalancando la porta di Marlì. Sentii il profumo da due soldi del detergente di eucalipto spargersi nel piccolo soggiorno. Con le braccia fine, lei strusciava il pavimento unto; un gesto ripetuto e violento, come se quel liquido fosse capace di pulire non solo lo sporco delle mattonelle, ma anche la sua reputazione, cancellando per sempre i dolorosi segni nel corpo e nell’anima. Come me, lei venina dalla campagna, però fece delle strade la sua università, e senza laurea o titoli di studio, sosteneva sè e la famiglia lontana.

— Ma... come farai con i tuoi clienti, figliola? Lei sospetterà…

— Io non sono di queste puttane senza morale, signore Antunes! Lei mi ha mai visto portare clienti qui in casa mia? In questo senso io apprezzo molto la famiglia; fuori dalla porta faccio il mio lavoro come si deve, ma quando torno a casa, sono soltanto la Marlì. Non mi piace mescolare le cose. I clienti io li servo nella strada, in orario d’ufficio, per non avere sospetti.

Nelle sue parole ho sentito un ridicolo “rutto” moralista spuntando nel suo petto volgare. Intanto che lei spolverava l’immagine della madonna sopra un altare improvvisato,  guardai le sue cosce mulatte e carnose e chiese alla santa perché noi vecchi dobbiamo soffrire tanto. Salutai Marlì e le augurai buona fortuna; è stato quello che sono riuscito a dire senza togliere lo sguardo dalla sua carne abbronzata. Abbottonai la mia giacca con le dita tremole. Il vento di quei corridoi mi dava i brividi, e nonostante il clima tropicale sentivo molto freddo – Il freddo della morte che ronda tra tutti i vecchi. La lampada vicino all’ascensore si era bruciata da quasi un mese e nessuno provvedeva a cambiarla.  Ero stanco di camminare nel buio e dovere tastare le pareti fredde. Verificai i soldi in tasca, mi bastavano appena per pagare la tassa del condominio e mi sarebbe avanzato qualche spicciolo. Avrei approfittato dell’occasione per reclamare al nuovo amministratore del palazzo. Lui mi avrebbe ascoltato, dopotutto ho sempre pagato puntualmente!
Entrai nell’ascensore vecchio e stretto, quelli con la saracinesca di ferro. Mi sentii come una sardina in quella scatola claustrofobica e rumorosa. L’aria sapeva di ruggine e io volli scendere  subito, cominciai a sentirmi male. Quel marchingegno si fermò nel nono piano e un ragazzino di più o meno diciassette anni entrò affrettato come chi non può perdere l’ultimo treno per una terra distante. Era vestito come i ragazzi della sua età, però aveva gli occhi nervosi e le mani fredde. Ho potuto sentire la freddezza del suo corpo anche senza toccarlo. Il cappuccio della felpa è scivolato della testa, rivelando il suo viso pallido e frastornato. Appoggiandomi forte al bastone, mi avvicinai: la mia rigorosa educazione mi obbligava ad aiutare qualsiasi persona che stesse male, e quel giovanotto aveva l’aria malata.

— Ha bisogno di aiuto, figliolo?

— Passa tutto, vecchio!

Anche se convivo tutti i giorni con la mia figura senile, non mi sono ancora abituato a essere chiamato vecchio. Mi suonava quasi come un’offesa, un termine che cancellava tutta l’esperienza che avevo accumulato nell’arco della mia vita; come se tutti i maledetti anni che avevo vissuto non valessero più niente. La parola “vecchio” non mi è mai piaciuta: anche i musei hanno il suo valore, ma un uomo vecchio per la società è simile alla spazzatura; inutile e sudicio.

— Mi chiamo Antunes, figliolo.

— Zitto, vecchio stupido, passa subito la grana!

Non so come lui sapeva che io avevo dei soldi in tasca. Probabilmente non lo sapeva, non aveva ancora percepito la gravità del suo gesto nel togliere un coltello dai pantaloni. Che male potrei fare a quel ragazzo? Con le mie forze ridotte a zero sarei incapace di reagire, anche se lui non fosse armato.

— Non ho niente, ragazzo!

Ma le mani agili del ragazzotto trovarono velocemente un piccolo pacchetto di soldi nei miei pantaloni. Non ho mai pensato che dentro del palazzo che un giorno fu sinonimo di “glamour”, dovessi stare attento alle rapine. Avevo già sentito parlare di piccoli furti nel condominio, ma non ci credevo molto. Un piccolo sacchetto con un tipo strano di erba cascò dalla sua tasca, lui raccolse rapidamente e mise insieme ai miei miseri spiccioli. Preferisco non divagare su il contenuto di quel pacco. Preferisco pensare che erano erbe medicinali. Credo ancora nella ingenuità delle persone. Solo non credo che l’educazione sia finita. Cavolo, chiamarmi di vecchio…maledetto stupido!

            La porta dell’appartamento 602 era la più bella di tutto il palazzo. Il tappeto ricamato dava una falsa idea di nobiltà a quell’angolo. L’amministratore dell’ edificio, un tipo grasso e con dei baffi folti, mi ricevette un po’ assonnato e io rimasi fermo per un lungo minuto senza sapere cosa dire.

— A quest’ora, Antunes? Ma, per favore...cosa vuole?

— La lampadina del mio corridoio. . . si è bruciata.

— Te l’ho già detto che la cambierò, più di questo che altro vuole che faccia?

—E’ che…è quasi un mese che aspetto…

— Sa quante quote condominiali in ritardo sto aspettando? Sono tremila abitanti, quasi nessuno paga...credi veramente che riesco ad amministrare questa baracca senza grana? Oppure vuole che metta di tasca mia?

L’idea di rivendicare i miei diritti è svanita quando l’amministratore, dondolando la pancia pigramente, mi mise al corrente con la reale situazione del palazzo. Con più di quaranta per cento di abitanti inadempienti  il povero uomo poco poteva fare. Ho mandato giù la saliva, il mio stomaco vuoto dovuto al digiuno mattinale cominciava a brontolare. Con la bocca secca, mi appoggiai stretto al bastone e rimasi in silenzio. Non riuscii a dire che quel mese non ce l’avrei fatta a pagare la tassa del condominio.
So che non sarebbe servito a niente raccontargli l’evento della rapina, e passare da vittima. Se gli abitanti non si scioccarono neanche con il recente assassinato di un inquilino, certamente non avrebbero fatto molto caso al mio dramma. Io sono stato stupido, chi abita nel palazzo Cambyçara non ha il diritto di girare con dei soldi in tasca. Lo salutai senza dire niente con la promessa di ritornare con i soldi della mensilità. Ero troppo stanco, mi fermai nel corridoio, mi sedetti in una sedia di vimini dimenticata in un angolo, riposando il mio corpo stanco. La grande confusione di anime affrettate e bambini reclamando il primo pasto del giorno no mi dava più fastidio. Erano anni che abitavo in quel posto, anzi, secoli! Tutto quel mucchio di cose e persone di origini dubitose mi era assolutamente normale. Guardai intorno e scopri lo scheletro di quello che un giorno fu una dimora nobile. Non mi sono mai fermato a pensare dei fili scoperti della luce e del tetto ammuffito. Le infiltrazioni scendevano attraverso il muro, formando disegni putridi, una specie di tatuaggio verdastro difficile da essere eliminato, una di queste macchie che impregnano l’aria e la mente. Più avanti, nello stesso piano in cui abitava il nuovo amministratore ho potuto sentire l’odore del sangue del vicino assassinato. La macchia era ancora lì, non si vedeva, ma si sentiva. Successe di notte, ma nessuno sentì gli spari. Sei pallottole, tutte nella testa. Il palazzo non si svegliò con il rumore della morte. Non avevo mai visto niente di strano in quel ragazzo, però ho voluto credere che anche lui usasse erbe medicinali, anche se dicevano che la polvere bianca che lui consumava, costava più della sua vita.

Pian piano le porte si aprivano, lente e rumorose, ancora con puzza di letto e peccato. Non tutte le “signorine” erano come Marlì, gran parte portava “lavoro” a casa e le pareti fini denunciavano la mancanza di pudore che si nascondeva in ogni cubicolo di quei lunghi corridoi. All’inizio tutto quel “entra e esci” di estranei  ha causato proteste tra i vicini, ma il tempo si incaricò di trasformare il fatto in una consuetudine. Giovani imberbi, signori con i capelli bianchi, rimediati e vagabondi. Uomini profumati e mal lavati. Le giovani prostitute accettavano qualsiasi tipo di cliente, sempre che potessero pagare la loro misera tariffa, anche perché le più esperienti non erano disposte a perdere tempo con gente sudicia o meschina, andavano direttamente sulla via principale, selezionando una clientela migliore. Se mia mamma fosse ancora viva avrebbe avuto una sincope al sapere che divido lo stesso tetto con questo tipo di gente. Prostituzione, omicidio, inadempienza e traffico di droga; questa era la mia realtà. E io che sono arrivato qui nel fiore dei miei diciotto anni, esibendo i miei quattrini, vivendo nel lusso, approfittando il meglio che la città mi poteva dare. Mi ricordo così bene di quest’epoca…Il palazzo imponente odorava a nuovo, la vernice fresca scintillava con i raggi di sole che arrivavano diritti al soggiorno, senza la barriera dei grandi grattacieli che ci sono oggi davanti. Ho conosciuto tanti altri ragazzi che, così come me, sono venuti a studiare nella metropoli. Le luci dei ristoranti e dei locali lampeggiavano davanti a noi, chiamando la nostra attenzione e la nostra paghetta. Donne di tutti i tipi cadevano nelle nostre braccia, nelle braccia degli “studenti contadini”. Questa era la nostra etichetta, praticamente vergini, ci deliziavamo con quelle donne mature e assetate di soldi. Ho perso i conti di quante volte ho frequentato la “discoteca volante”, una specie di bordello camuffato di bar. La luce era diffusa e calda e li passavamo la maggior parte delle nostre notti insonni. I miei amici si sono laureati, diventarono dottori; io ho continuato a deliziarmi nelle braccia delle bimbe. Mi piaceva troppo la trasgressione per imprigionarmi in un diploma. Ho avuto mille lavori, dai più bassi ai ben pagati, ma nonostante questo, mio nonno morì disgustato, non ho seguito le sue raccomandazioni, non sono diventato l’avvocato che lui ha sempre sognato. Mi lasciò soltanto l’appartamento in cui abito oggi e una casetta semplice in un suburbio lontano, il resto dell’eredità lo ha destinato alla chiesa. Ho smesso di andare alla messa. Oggi vivo dell’affitto di quella casa, in fondo lui sapeva che io, in un modo o nell’altro, mi dovevo sostenere in vecchiaia. Anche lui conosceva le delizie di vivere in mezzo alle donne e secondo me, ha potuto immaginare che forse io mi sarei lasciato trascinare dal gusto del peccato. Era sicuro che un giorno anch’io avrei esalato  lo stesso odore ocre che lui emanava. I miei colleghi di gioventù non mi cercarono più, mi abbandonarono al vedere che io non sarei arrivato da nessuna parte. Oggi non ho amici, ma non mi pento di niente nella mia vita. Ho vissuto intensamente, ho bevuto nella bocca delle donne più favolose della città, ho fumato sigarette e sigari, ho guidato camion e ho pulito cessi. Sono sempre stato libero. I miei capelli bianchi mi hanno dato un certo rispetto, sono il simpatico signore Antunes, il nonno di tutti, quello che non fa del male a nessuno. Vivo la mia neutralità opaca, insipida. Sto bene così. Tornai al presente risvegliato dal odore forte del mio alito. La mia bocca era amara. Avevo bisogno di mettere qualcosa nello stomaco.

 Il pian terreno era il luogo più animato del palazzo. I bar e i piccoli negozi inquinavano tutto il quartiere, però eravamo così abituati che non riuscivamo a vivere senza di loro. La mancanza di igiene mi preoccupava, ma dopo tutti quegli anni ho imparato a sopportare anche la sozzeria. Girai intorno ad una piccola montagna di rifiuti bagnati e mi appoggiai nel banco della baracca di sempre. Il signore Feitosa era lì; svogliato e sudicio, con un asciughino appoggiato sulla spalla pelosa, indossando la sua consueta e schifosa canottiera che un giorno era bianca; con una tosse cronica che lo accompagnava dai tempi di gioventù. chiesi un caffelatte. Ed era subito pronto, come sempre, veloce ed acquoso, con la panna del latte grasso galleggiando nella superficie del bicchiere. Sembrava acqua sudicia, ma per me era delizioso. Chiese un cibo qualunque per accompagnare la bevanda. Morsicai il toast con difficoltà, il pane gommoso era freddo, ma mi piaceva così, forse ho imparato ad accetarlo. Andavo lì tutti i giorni, non tanto per il cibo, ma per il piacere di vedere gente, di chiacchierare con gli altri commercianti, di sentirmi ancora vivo e partecipante.

— Che mi racconti, Feitosa?

— Che ti devo dire, Antunes? Lavoriamo per questi vagabondi, per queste donnace e a fine mese non ci avanza niente! I tempi sono cambiati, i controlli non ci lasciano in pace, non so dove andremo a finire…

Io ero d’accordo con l’ispettori sanitari, stabilimenti come quelli dovrebbero essere interdetti, Io stesso non dovrei mangiare lì, ma dopo tanti anni niente mi potrebbe fare male. Era la mia gente, compagni di miseria, persone cadute nella dimenticanza, come me: senza presente né passato e probabilmente senza futuro.

— Le cose migliorano con il tempo, mio caro, sempre migliorano…

— Se migliorano come è migliorato questo palazzo…

Feci una risata per niente convinta mentre il pane si attaccava alla mia dentiera e io prendevo un ultimo sorso del mio caffè scialbo. Misi le mani in tasca per raccogliere gli ultimi spiccioli che avevo. Mi dimenticai completamente che poco tempo prima fui rubato da un borsaiolo. Un “  borsaiolo”… Dio mio… come sono vecchio! Quel ragazzo aveva ragione, mi sono fermato nel tempo e nello spazio utilizzando vocaboli del tempo “del medioevo”! Ed ero lì di nuovo a rovesciare espressioni dentro di me stesso che nessuno più sapeva il significato. Chiesi a Feitosa che mi facesse credito. Il suo silenzio mi fece dedurre che la risposta era positiva. Dovevo pagare la tassa del condominio e adesso anche la colazione. Un giovane delinquente passò correndo vicino a me, evitando di investirmi per poco. Nelle mani una bottiglietta di “colla” e alle calcagna alcuni turisti furiosi. Non mi sono mai abituato alla poca età dei marginali moderni. Figlioli appena usciti dai pannolini che al posto della pappa si nutrono del inebriante profumo degli stupefacenti. Proseguii  il mio camino, il mare soffiava una calma brezza, caricata di salsedine. Ammirai le belle palme che adornavano la via, una città bellissima. Mi innamorai dal primo momento che la vidi. La amavo ancora, ma sentivo le lacrime bruciare  i miei occhi senili al vedere in quello che si è trasformata. Le baracche di cianfrusaglie, la fogna scorrendo per i marciapiedi rotti, il disinteresse delle autorità con l’igiene e la sicurezza del cittadino…
Le urla degli ambulanti mi svegliarono dal mio torpore. Era inutile rimanere lì fermo immaginando quello che sarebbe potuta diventare quella città o quello che era in passato. Tutto era cambiato, io compreso. Non mi restava nient’altro che ritornare al mio insalubre appartamento, accendere la tv e fare finta che non era successo niente. Quel maledetto ascensore del 1950 ha avuto così poche manutenzione in tutto suo tempo di vita, ero sicuro che lui era più marcio di me. Non mi sono mai fidato di quel marchingegno. Mentre lui saliva lento e floscio provavo a non pensare ai suoi scricchiolii. Potevo sentire i cavi d’acciaio sbriciolarsi, la cassa metallica che si attorcigliava come se si annodasse. Sospirai sollevato quando arrivai al mio piano. Mi sentii felice nuovamente nel ritornare nel mio corridoio lungo e buio. Aprii le finestre del mio appartamento e respirai la pura aria marina.

Il panorama era spettacolare; la spazzatura e il casino delle baracche di cibo sembravano sfumarsi all’orizzonte. Ascoltavo solamente le paglie delle palme e le machine suonando i clacson da lontano. Per la prima volta in tutti quei anni io sarei entrato per la lista dei debitori del condominio, e io che ero del tempo in cui la parola valeva tanto quanto un documento firmato dal notaio. Ero veramente vecchio. Maledetto ragazzo che mi rubò. Non pensai nemmeno di andare a denunciarlo. Avrebbero riso di me, solamente uno stupido come me doveva stupirsi con i crimini commessi nel più famoso, il più decadente palazzo della città. Io ero un fesso, come mi aveva detto quel ragazzo.

Non ho voluto guardare le trasmissioni vespertine, avevo un amaro in bocca e nell’anima che mi toglievano il piacere per le cose più semplici. Mancavano dieci giorni per la fine mese…fino a quel giorno avrei dovuto arrangiarmi come solo Dio sapeva.

Non sono il tipo che mette soldi da parte, non avevo riserve nè risparmi, sono sempre stato un “bon vivant” e anche con tutte le asprezze di una vecchiaia modesta, non mi pento di niente. Ho vissuto, e adesso consegnavo la mia vita alla Providenza divina. Mio nonno mi ha insegnato a fare il bagno tutti i giorni e a fidarmi del padre celestiale. Ma dall’alto dei miei  quasi ottanta anni non so più a cosa credere; forse ho perso la fede in tutto, anche in me stesso.

Frugai i cassetti del vecchio comodino e tirai fuori una scatola di tranquillanti. Era molto che non li prendevo, non ho neanche controllato se erano scaduti. No mi importava. Li presi, credo fossero cinque o sei, con molta acqua. Avrei voluto dormire per tutti i dieci giorni, senza dovere pensare a niente, principalmente nella vergogna di non avere i soldi per pagare i conti. Forse un angelo sarebbe venuto a raccogliermi, forse presto non avrei più bisogno del bastone. Non sapevo cosa stavo facendo o pensando. Mi sdraiai nel mio ampio letto matrimoniale cullato per la dolce brezza del mare.

Non so quanti giorni ho dormito. Forse tre o quattro. I crampi dello stomaco denunciavano molte ore di digiuno. Sentivo tutte le sue rughe contrarsi in spasmi. Guardai intorno a me per orientarmi. Ero nel mio caro appartamento… La mia dolce dimora. Mi alzai con difficoltà e trascinai mio corpo decrepito fino al bagno. Allo specchio vidi che ero invecchiato di per lo meno cinque anni. Questo è uno dei lati sorprendenti della vecchiaia, ogni giorno che passa, si invecchia un anno e la differenza è notevole! Seduto in un sgabellino di legno, mi accomodai sotto la doccia, dispensando un minuto per ogni anno della mia vita, lavando più di mezzo secolo di vivenza.

Mi rasai pensando al barbiere dell’angolo che mi faceva barba, capelli e baffi… Quanta nostalgia! E’ un mestiere che quasi non esiste più! Questa volta lasciai perdere il talco che avrebbe intensificato ancora di più mio odore di cosa antica. Mi riempii di dopo barba e  mi pettinai. Avevo sete. Bevvi diretto dalla scatola i residui di un succo d’arancio dimenticato nel fondo del frigo. Forse era lì da un mese, non ho nemmeno sentito che gusto aveva, so soltanto che era giaccio, come i miei piedi. Misi le scarpe e uscii. Avevano cambiato la lampadina. La luce mi sembrò esageratamente forte, quasi desiderai l’oscurità di prima. Una sagoma comparse lungo il corridoio, sistemai gli occhiali da vista e vidi la sensuale figura di Marli. Bella come sempre, ma senza i suoi abituali vestiti attaccati al corpo. Esibiva una gonna lunga e una camicetta molto composta, abbottonata fino al colo. Nel viso nessun segno dello scabroso trucco di bordello. Le labbra pallide non ostentavano il rosso sangue del rossetto da due soldi e i capelli erano legati di forma molto casta.

— Buongiorno, signore Antunes. Era sparito...

— Marli, mia cara, che ti è successo? Hai abbandonato il mestiere?

— Pssssstt. . . zitto! Per tutti gli effetti sono una ragazza di famiglia. E’ arrivata la mia sorella.

— Ah, capisco. . . Ma come fai a vivere adesso senza i tuoi client…

— Marli, con chi parli?

— Rosalba, Io. . . è. . .questo è il signore di cui ti ho parlato.

— É lui?

— Antunes signorina, molto lieto.

— Così vecchio, Marlì?

— É un uomo molto decente, ha una buona pensione e mi vuole bene, Rosalba. sarà un buon marito...

— Marito?!!!...pensai…

Mi si gelò il sangue, qualcosa mi diceva che Marlì non stava scherzando ed io mi trovavo in un grosso guaio senza volerlo.

— Bene. . . al meno lui è pulito, profuma. Mi sembra un bravo uomo. Auguri sorellina. Sono contenta di sapere che hai un uomo al tuo fianco. Molto lieta di conoscerla, signore. Me ne vado in camera, è l’ora del mio rosario. Ci vediamo più tardi.

 Accompagnai con gli occhi increduli l’ombra della “beata” che trascinava sua lunga gonna fino in camera. Marlì mi teneva per mano. Era afflitta, digerendo ancora l’approvazione della sorella.

 — Grazie, Signore Antunes. Rosalba ha simpatizzato con lei. Non voglio che lei pensi che sono una donnacia nella capitale. . .

— Ma. . . dovrò veramente sposarti? E melo fai sapere così, senza preavviso?

— Ma no, Signore Antunes, è soltanto una messa in scena. Solamente mentre mia sorella è qui in città. Lei non si rifiuterà ad aiutarmi, vero? E’ molto importante per me!

 Mi ricordai per un istante che non avevo neanche un centesimo in tasca, la tassa del condominio era in ritardo e la mia dispensa era vuota.
Per tutta la mia vita ho imparato ad arrangiarmi, prendendo il mio sostegno da tutte le parti, senza ricorrere all’aiuto di nessuno. Sono sempre stato intelligente e onesto. Ma esiste una linea molto tenue tra l’onestà e l’istinto di sopravvivenza. In quella parte della mia vita io non potevo avere tanti scrupoli. La vecchiaia ci regala la libertà di essere sinceri con noi stessi e ci permette dire quello che ci passa per la testa. Per la prima volta ho approfittato della mia età avanzata senza nessun rimorso.

— “Trecento bigliettoni”! E chiudiamo così! Sarò tuo marito fino a quando vorrai, mia cara!

Mio nonno aveva ragione, i vecchi puzzano. Però in quel giorno io profumavo come il figlio del barbiere. Ero un uomo decente. Lui sarebbe veramente orgoglioso di me.
Sarei entrato nella storia di quel palazzo per la mia alta pericolosità. Ero un uomo furbo! Ho avuto i miei servizi pagati da una prostituta.
Stavo diventando veramente vecchio, i tempi erano cambiati.
E molto!


  

Autore: Ilka Christine Albert Canavarro
Pubblicato su: Revista Textura ANO I – Novembre 2010

Quinta-feira, Setembro 01, 2011

Manuela




Eu estava longe de ser um habitué, um fã de cafés e brioches. Jamais me interessei pelos confeitos elaborados ou creme das taças fumegantes de leite com chocolate. E de repente me vi impelido a freqüentar aquele bar diariamente. Minha obsessão por aquela mulher chegara a níveis escandalosos, inaceitável à minha mente abominavelmente racional. Meu corpo não conhecia mais limites, eu não respeitava horários nem sentia mais a aspereza dos fios duros da barba que tomavam conta da minha face debilitada. Enfiei a mão no bolso do meu casaco enxofrado e tirei dali um amarrotado e velho maço de cigarros. Traguei a inebriante mistura de tabaco e alcatrão, sem filtro, como fazia nos tempos em que aquelas baforadas me davam prazer. O que restara de mim era tão cinza e vaporoso como a fumaça que saía de minha boca e da xícara que eu havia pedido. Um prosaico café, negro e amargo, trivialmente aborrecido, até a triunfal entrada de Manuela.

O saião aveludado cobria-lhe as pernas até o final dos calcanhares, deixando à mostra apenas uma pontinha de suas botas envernizadas. Ela pediu o óbvio, sua boca abriu-se da mesma maneira voluptuosa como da primeira vez em que eu a vira, com todos os seus dentes perolados enfeitando seu sorriso incerto.

– “Um café e um brioche por favor”

E degustou ali mesmo no balcão, sem dar satisfação à ninguém, enquanto admirava a chuva cair do lado de fora da grande porta de vidro. E foi a incerteza daquele sorriso, a minha indecisão em julgar a beleza de Manuela que me acendeu novamente a chama na alma. Nada de rompantes apaixonados,de arroubos românticos; continuo desacreditando no amor, mas acreditei que aquela mulher fosse diferente de todas as outras. 
Ela pertencia a um seleto grupo de pessoas que tem algo de especial, uma certa relutância em fazer parte da rotina do mundo. Eu poderia imaginá-la cometendo os atos mais insólitos como tomar banho de mar de madrugada ou fazer amor em público, apenas pelo gosto do proibido.

Senti meu estômago arder ao contato da bebida quente. Pelos meus cálculos eu não comia nada há dois dias e nem sentia necessidade de me alimentar. Pedi outro café, desta vez accompanhado com um copo de rum. Não queria admirar aquela mulher a seco. Pude sentir o vento se deslocar quando ela bateu o saião e dirigiu-se à mesa vizinha à minha. Aproximou-se com aquele andar que eu já tinha visto antes, enigmático e cadenciado, numa mansidão morna de quem mede os próprios passos.

Abriu o jornal e concentrada fixou os olhos nas linhas do periódico. Mas a quem ela queria enganar? Talvez eu fosse o único, com toda a amargura que roía as minhas entranhas , eu sabia que no fundo os olhos de Manuela haviam escolhido a caso uma notícia qualquer, provavelmente a propaganda de algum imóvel ou até mesmo o obituário. Aquele ar descompromissado de quem não deve nada à ninguém não combinava com ela e aquilo atiçava a minha curiosidade. De alguma forma deduzi que ela não era sincera nem consigo mesma, como se precisasse urgentemente de ilusões para continuar vivendo. Aquela criatura era como eu. Nem me lembro ao certo o dia em que nasci, nem qual é o meu signo, mas tenho certeza que ele não combina com a realidade. Até mesmo as panelas do mais nobre aço se salpicam de ferrugem com o tempo, mesmo que superficialmente. Manuela tinha algum segredo sujo guardado sob aquele verniz de boneca de porcelana. Não que me importasse, todos temos segredo; apenas me excitava, sempre que isso fosse possível.

Dispensei o cafè e pedi outro copo de rum, num grande gole tomei a bebida e um pouco de coragem e me aproximei dela. Não sabia ao certo como meu gesto seria recebido, certamente me rechaçaria, me chamaria de louco, de velho decadente. Mas não importava, eu não tinha nada a perder, havia chegado a um ponto da minha vida no qual a vergonha é um sentimento insípido e incolor; como beber água quando se deseja um copo de uísque, não me causava o menor efeito.
Manuela não desgrudou do jornal, sua expressão compenetrada convecia a todos menos a mim.

–Posso?

–Hã? Ah sim...deduzo que queira se sentar... – Enquanto ela fechava o jornal e me flechava aquelas palavras de modo tão frio eu engolia em seco e sentia ainda o arder da bebida em meu esôfago castigado. – Pois sente-se, não posso proibí-lo, estamos num lugar público.

Só uma mulher especial responderia assim a um desconhecido. Manuela não era uma mulher qualquer. Era a perfeição em pessoa.

–Acompanha-me no café?

–Na verdade preferiria um uísque.

–Forte para se tomar às nove da manhã. – Ela sorria enquanto me criticava e era linda naquele sorriso.

–Para mim ainda é fim de noite, costumo ir para a cama só ao meio-dia .

–Interessante. – Ela cruzou as pernas lentamente e admirou a chuva mais uma vez – Tentei adotar tais costumes notívagos, mas não consegui me adaptar. Questão de hábito.

Achou graça nos meus hábitos de cavernícola e sorrindo tirou um cigarro da bolsa e me ofereceu.

–Quem disse que eu fumo?

–Um fumante reconhece outro quando o vê.

–Admiro sua perspicácia, não é muito comum hoje em dia.

–Dizem que quando nos faltam certas qualidades procuramos substituí-las por outras.

– Não creio que você seja priva de uma qualidade maior ou mais importante que a perspicácia. Parece-me muito virtuosa.

Manuela sorriu e aceitou a cafonice do meu galanteio como se fosse um fino poema de amor. 

E enquanto ela massageava o meu ouvido com sua risada harmoniosa, eu tentava tirar os pelos do meu casaco mal ajambrado. Fazia anos que eu não me preocupava com a minha aparência.

– Chamo-me Manuela e você?

–Pode me chamar de Teo. Esse velho rabugento e descuidado que vos fala!

–Os indumentos de uma pessoa dizem muito sobre ela.

Manuela era assim, direta e desmedida. Sorri um sorriso desajeitado e quando pensei que entabularíamos uma conversa senti a aproximação de um rapaz, alto e insuspeitável.

–Ei Manu!!! Me acompanha num café?

Ela sorriu e segurando o amigo pela cintura olhou-me fixamente.

–Hoje não, Carlito, encontrei meu velho amigo aqui. Fica para a próxima.

E para meu espanto eles se despediram com um terno beijo na boca.

– Não me julgue... – Pediu-me receosa.

–Não creio que você tenha medo do julgamento alheio, assim como não acho que sejamos amigos.

–Não, não somos. Mas poderemos ser...

Pedia-me para não ser julgada enquanto oferecia seu sorriso sincero a um estranho decrépito como eu.

“Não somos, mas poderemos ser...

Aquilo me excitava e eu a desejava, como se ainda fosse possível na minha vergonhosa e ridícula situação. O meu cérebro despia o corpo de Manuela lentamente, beijando-lhe o pescoço longilíneo e sua boca cheia de dentes. Desejei ter novamente dezoito anos e odiei meus malditos cabelos brancos. Mas ela confessou ter atração por homens mais maduros e não teve escrúpulos em receber-me em seu pequeno apartamento. As paredes brancas do ambiente milimetricamente arrumado não se envengonharam perante o descabido enlace íntimo entre Manuela e eu. Deixou cair o saião aos meus pés numa sofreguidão de dar dó. Ela me desejava e não se envergonhava em demonstrar. Fechei os olhos e gelei, entrevendo o vexame que se seguiria. Mas em meio ao breu do quarto senti um baque duro no chão.

Manuela desfez-se da sua perna postiça, fazendo-me tocar o que lhe havia restado do antigo membro direito. Não sei descrever se o que eu senti foi alívio ou surpresa. O fato é que eu estava em choque. Mas o que era uma perna mecânica perante o apelido que ganhei nos treinamentos militares? Manuela não permitiu que eu repetisse a minha dolorosa alcunha. Ela ouviu de meus lábios a palavra “eunuco” pela primeira e última vez. A falta da minha virilidade acendeu um brilho nos olhos daquela mulher. Abraçou-me como se eu fosse a mais preciosa da criaturas na face da terra. Beijei-a e naquele beijo percebi o quão era difícil para uma mulher sozinha conviver com aquele defeito. Senti na pele o seu medo em perder a outra perna e talvez a própria vida, temendo que aquela dooença ruim pudesse voltar um dia. Imaginei que o verniz com o qual ela havia coberto a sua personalidade era uma forma de se proteger do mundo real.
A simpática e sociável Manuela estava só, e não gostava de ler as notícias dos jornais. Dividia sua mesa com qualquer um, bebia do café dos homens mais galantes, mas no final da tarde voltava para sua casa perfeita onde pousava a sua prótese como um monumento à solidão.

Não tínhamos mais nada a dizer um ao outro. Não creio que a nossa história pudesse ter um final feliz. Decidimos não medir nossa amizade pelos meios tradicionais. Nada de começo, meio ou fim. Para nós não havia o que começar ou terminar. Não sabíamos nada do futuro, tínhamos somente um passado doloroso e um presente de mentiras. Decidimos não fazer planos. Nos encontrávamos todos os dias num bar qualquer, como se fosse a primeira vez, ela me sorria e me convidava a acompanhá-la num café. Após muitas lutas comigo mesmo e alguns copos de uísque aconselhei que ela fosse para casa com seu amigo Carlito. 

E eu esperava ferrenhamente que aquele rapaz saudável fizesse com ela o que eu não podia mais fazer. Pude sentir o calor de suas lágrimas que ainda não haviam caído e tive a certeza de que ela não haveria coragem de se deitar com qualquer outro homem que não fosse eu.

Eu não gostava de café, nem era fã de croissants. Mas continuei a degustá-los todos os dias, como um náufrago que se apóia a um destroço. Eles me lembravam Manuela e me deixavam na boca o gosto do único beijo trocado entre nós. Eu a amava e queria somente que ela fosse feliz.





Quinta-feira, Abril 07, 2011

Edf. Cambyçara.... em breve

Segunda-feira, Abril 26, 2010

A mulher de trinta e poucos

          A mulher de trinta e poucos apaixonou-se pelo homem de quarenta e poucos. Ele havia alugado um escritório junto ao seu, no mesmo centro comercial, aquele in no miolo da cidade. E foi no primeiro almoço dividido, às treze em ponto, que o homem de quarenta e poucos demonstrou uma certa reciprocidade naquela paixão inesperada. Pensaram em dividir a alface e o bife, mas acharam melhor esperar um pouco mais antes de tomar certas liberdades gastronômicas na frente dos colegas de trabalho. Essa de comer juntos e em público soava-lhes um tanto subliminar. Não queriam ser taxados de solteirões desesperados. Fizeram de conta que não se importavam um com o outro. Ensaiaram uma expressão de desdém mútuo, até que, por fim, decidiram dividir não só o prato do almoço, mas também a quitinete onde ele morava. A mulher de trinta e poucos não se incomodou em abandonar a casa da mãe pra morar num quarto e sala. Saiu de cabeça erguida e jogou fora o título de vitalina que há tanto carregava dentro da bolsa. Não levou nada, apenas duas mudas de roupa e a necessaire com a maquiagem e os creminhos anti-rugas; para uma mulher que já passara dos trinta ela era indispensável, tão importante quanto a própria vida. Passou a trabalhar com mais entusiasmo, ganhou novas cores e começou a comer mais natural. Pensou em todo o tempo que perdeu sem ele e não sabia como um homem assim tão especial estivesse sozinho esse tempo todo. O homem de quarenta e poucos agradeceu o elogio e explicou que não era bem o solteiro convicto que ela pensava. Estava sozinho sim, mas isso após um casamento falido de quinze anos e um filho da mesma idade. A mulher de trinta e poucos não se chocou com a crueza da verdade. Sorriu e achou a sua sinceridade ainda mais romântica. Prometeu não tocar mais no passado e pediu pra conhecer o seu rebento, sangue do seu sangue.
         Passaram a ir juntos para o trabalho todas as manhãs, ela escovava os dentes depois dele e passava uma esponja na pia do banheiro, limpando os restos de espuma de barbear e pêlos que ele deixava displicentemente. Enquanto o homem de quarenta e poucos a chamava na porta olhando freneticamente o relógio, ela estendia apressada a toalha molhada que ele havia deixado em cima da cama e varrendo numa rapidez descomunal, tirava do caminho as guimbas de cigarro que ele deixava no chão. Passaram a chegar atrasados no trabalho. Ele a culpava de ser extremamente maníaca por limpeza, ela o chamou de desleixado e com a primeira rusga que empana uma história de amor, a mulher de trinta e poucos fez beicinho e se magoou com o seu homem. Fizeram as pazes e renovaram os votos numa noite de paixão desenfreada com direito a vinho chileno comprado na promoção, dvd alugado, edredon macio e meia luz de um abajour encarnado. O amor dos dois fazia gosto, um belo casal que se entendia em tudo.
          Começaram a fazer planos imediatos, afinal não eram mais adolescentes. Queriam fazer uma poupança, economizar para comprar um apartamento só deles, um carro novo e fazer uma viagem de lua-de-mel. Pareceu-lhes um desperdício comer fora todos os dias. Passaram a almoçar em casa. Ela jogava a bolsa no sofá enquanto corria para fazer uma omelete no capricho, com ovos de galinha caipira, cebolinha picada, presunto, milho verde e noz-moscada. Incrementava o prato com uma saladinha verde com direito a rúcula e agrião. Fazia questão de preparar um suco de laranja fresquinho na centrífuga, bem natural, nada de conservantes. O homem de quarenta e poucos comia satisfeito e beijava a sua musa feliz da vida.
Partiam imediatamente para o trabalho, enfrentando o tráfego e o mundo, haviam a maior arma contra os suplícios da vida: o amor. Sobrava-lhes muito pouco tempo após cada refeição. Justo uns minutinhos para escovar os dentes e “zarpar”. E assim fizeram durante meses, a mulher de trinta e poucos cozinhava com júbilo, mesmo com os minutos contados e o suor escorrendo-lhe da testa empoada. Entretanto após um longo período, cansada de inventar pratos novos e saudáveis, caiu na rotina do velho e prático galeto de supermercado. O gorduroso bicho, empapado de óleo passou a ser acompanhado por suco de uva em caixinha, ela não tinha mais paciência de usar a centrífuga e depois lavar cada reentrância daquela maldita máquina. O homem de quarenta e poucos nada disse sobre a repetição do cardápio, mas após algumas semanas empanturrando-se da mesma “iguaria”, passou a sentir os sintomas da azia. Ela dizia que se ele fosse assim tão preocupado com a saúde que parasse de fumar e a ajudasse mais em vez de ficar de braços cruzados. Brigaram não uma, mas dezenas de vezes. E se reconciliaram como da primeira vez. O amor parecia mais gostoso quando era feito após uma discussão. Em janeiro, decidiram comemorar um ano de convivência, o homem de quarenta e poucos estava doido para ir à praia, um finalzinho de semana num paraíso tropical, muita água de coco, peixe e luz da lua. A mulher de trinta e poucos aceitou no ato e correu para comprar biquini novo. Queria mesmo livrar-se daquela cor “branco-escritório”. Há tempos que não ia à praia, então saiu em busca de um novo modelito praieiro numa loja do shopping. Teve a maior revelação de sua vida numa pequena cabine de ângulo duvidoso.
A mulher de trinta e poucos achou que a força do pensamento fosse o suficiente para combater os efeitos da gravidade, mas suas coxas, com a mesma consistência de uma coalhada, tremiam roliças, enfiadas naquela minúscula peça. Mas ela era uma mulher emancipada e inteligente. A mulher de trinta e poucos nunca acreditou na supremacia da beleza física...há muito não se olhava nua diante do espelho, não tinha tempo para essas “frescurites”. Tentou não fixar sua figura refletida naqueles monstros de aço, mas seus olhos pararam diante dos seus culotes, dando-lhe a bombástica confirmação que ela havia negado a si mesma: já não tinha mais dezoito anos. Comprou um maiô inteiriço e uma sandália espalhafatosa, na ingênua esperança que o adereço chamasse atenção para seus pés e não para suas coxas flácidas. Precisava de algo romântico para a noite. Comprou uma camisola sensual daquelas com bojos marcados, mas os seios que também já haviam pasado dos trinta, não se encaixavam na armadura rígida do sutiã. Com as mãos, ajeitou o peito que teimava em descer num truque que só aquelas que estão beirando o declínio conhecem, empinando-se para frente, ensaiando uma pose de lolita. O homem de quarenta e poucos achou interessante o novo jogo e flertando com a mulher levou-a para a cama. Mas eles já se conheciam bem, tão bem que não havia mais nada a explorar e depois do amor, nada a dizer. Ela rompeu o silêncio e deu-lhe um beijo cheio de boas intenções enquanto comunicava sua mais nova idéia. “–Bem que podíamos ter um filho juntos.”
O homem de quarenta e poucos engoliu em seco, fazendo um barulho surdo que só os fugitivos procurados pela polícia conseguem emitir e deixou o aconchego dos braços da sua amada para tomar banho. “estou com calor”. Ela bem que tentou fazer beicinho, mas após suas vãs tentativas de jogar o charme feminino pra cima dele, entendeu que suas técnicas já não faziam efeito. “Já tenho um filho, crescido e bem criado, não quero passar por tudo de novo. Outro bebê não está nos meus planos – dizia, enrolado na toalha – mas eu te amo, querida, podemos fazer muitas outras coisas juntos....”
          A mulher de trinta e poucos resolveu relevar a falta de sensiblidade do seu companheiro e deu tempo ao tempo. Mas há coisas que nem o tempo é capaz de relevar. Após três anos de convivência, as cuecas sujas no chão do banheiro, as meias encardidas debaixo da cama, a tampa do vaso sempre aberta, os arrotos na hora do futebol e as unhas grandes do pé dele foram a gota d’água. No fundo ela sabia perfeitamente que aquilo era uma desculpa para encobrir o que realmente a aborrecia nele: o descaso com seus sentimentos. Preferiria mil vezes encontrar uma mancha de batom em seu colarinho do que aquele egoísmo gritante. Não mais tocou no assunto e no quarto ano em que estavam juntos ele propôs uma segunda lua-de-mel, sem idéia para aonde iriam, deixou a decisão para ela: “–Aonde podemos ir, querida?”
          A mulher de trinta e poucos acordou de manhã cedo com a sensação de ter perdido meio século de vida. Em breve teria mais de quarenta, não havia plantado nenhuma árvore, escrito um livro ou tido um filho. Não poderia nem mesmo morrer se quisesse. E com essa sensação de falimento que oprime aqueles que não tiveram coragem de ousar num passado próximo e que agora parece muito remoto para se voltar atrás, a mulher de trinta e poucos descobriu que não havia mais um minuto a perder. Decidiu finalmente para aonde ir no seu quarto aniversário de concubinato.
O homem de quarenta e poucos despertou feliz da vida com a supresa que sua mulherzinha havia preparado para ele. No espelho algum tipo de frase romântica escrita com batom vermelho. Notou a sua ausência e a falta da sua necessaire de estimação. Pôs os óculos de grau e aproximou-se para ler melhor.
“Já decidi aonde vou, volto pra casa da mamãe. Vou ter um filho de quem me der na telha, dormir de pijamão, assistir minhas novelas , voltar a fazer ginástica e comer quantos galetos e sucos engarrafados eu quiser. Já você, sei de um ótimo lugar aonde pode ir:

Vá à merda! E faça boa viagem.”